quinta-feira, 10 de outubro de 2013

uma das verdades definitivas da vida

Gertrudes apagou o cigarro no cinzeiro abarrotado, soprou a fumaça, dirigiu-se, vacilante, ao armário e começou a puxar as gavetas cheia de um desespero completamente descoordenado, tirando caixas, jogando sutiãs, calcinhas, meias, camisetas amareladas, sapatos, tudo pra fora, e revirando fotos, bilhetes, números de telefones, buscando na memória mensagens antigas que conseguia lembrar a fim de obter alguma evidência pra convencê-la do contrário. Sua cabeça era uma tremenda confusão mas sabia que alguma coisa ficara pra trás. Ainda não compreendia bem ao certo o quê fora, se tivera sido a novidade e a empolgação, mas provavelmente nenhuma, ou se talvez tivera sido a leveza, a doçura e, sobretudo, a forma como um via o outro. E dessa coisa, perdida em alguma dessas curvas sinuosas pelas quais passaram acelerados e bêbados, sobrou uma saudade doida, do tipo que antes de saudade era outro sentimento impossível de definir, mas que tangia a felicidade extrema e que ela antes costumava se perguntar se seria possível alguém morrer de alegria. Pensando nisso, sentou e chorou numa clara demonstração de falta de auto-controle, babava e esfregava a cara como se quisesse arrancar nariz, boca, olhos, orelhas, e se olhava no espelho com toda a piedade que lhe era possível. Depois, ainda se debulhando em lágrimas, sentia um ódio do cão e arquitetava vinganças maquiavélicas, articulava discursos que nem Kant escreveu, pra depois se resignar e prosseguir a sua busca afobada naquela bagunça, somente pra encontrar a maldita certeza que escapou por entre seus dedos como uma neblina matinal.
Acontece é que era uma tarde feia, feia mesmo, e fria, fria mesmo, e eles estavam debaixo da coberta marrom e pelando, uma velha conhecida dos dois, que os havia acolhido por tantas noites e acabou com eles naquele verão que ainda se lembrava como se tivera sido ontem. Gertrudes sentia uma saudade louca de quando os dois assavam no quarto de Bonifácio, suando e fazendo um amor ainda mais alucinado da hora em que chegavam, bêbados pela manhã, muitas vezes sujos, até as tardes defumantes daquele tempo em que não se preocupavam com nada. Ela olhava dentro dos olhos de Bonifácio, de maneira retilínea e constante, enquanto segurava seu rosto entre as mãos finas e ele retribuía, acrescentando todo o amor e condescendência que ele sempre fora capaz de sentir, atingindo-a como uma espada bem no meio da alma. Não diziam muitas palavras porque não precisavam, o entendimento silencioso e mútuo era uma história velha pros dois, tão cúmplices. 
- Você foi feito pra amar. Disse, finalmente, com os olhos marejados, e sorriu de dor, com um aperto incômodo no peito. 
Bonifácil acenou afirmativamente embora não soubesse o que ela queria dizer de fato. A bem da verdade, não havia qualquer outra definição mais clara do que aquela, com um vernáculo específico no dicionário, "pessoas que são feitas para amar". Era algo mais próximo a uma condição, a um estado de espírito propício pra determinada atividade, do que a uma característica ou a um adjetivo que se aplica ou se atribui a alguém. Ele pensava que havia nascido pra amá-la até os confins da vida e ela pensava que ele era apenas uma criatura do amor e que, se eles botassem um ponto final naquele momento, logo depois ele já seria capaz de amar outra pessoa e de dizer a essa outra pessoa tudo o que ele dizia a Gertrudes, e ela sabia que isso não conseguiria suportar.
E enquanto ia remexendo nas suas tralhas emocionais, colocando as coisas no lugar, desvirando tudo do avesso, num lampejo íntimo, como numa revelação interior, teve a compreensão que a certeza de que tanto precisava não passava de um conceito acessório desnecessário, era uma pequena palavra desumana em que deveria cagar em cima, jogar na primeira lata de lixo que visse pelo caminho, pois o olhar do Bonifácio excluía toda e qualquer necessidade dela, porque a presença dele ali era a própria certeza encarnada, viva, pulsante e latejante. No fundo, Gertrudes sabia que ele era o amor assertivo e real, assustadoramente real, encarando-a com convicção e firmeza, esperando a retribuição equivalente da sua parte, mas que parecia engasgar a cada vez em que o assunto se aproximava.
Secou os olhos, raspou a garganta e atendeu o telefone. Do outro lado da linha, a voz que dizia seu nome com familiaridade e carinho, também falava sobre uma tal saudade doida, doida mesmo, então se sentiram gêmeos de espírito outra vez, e se amaram com a veemência habitual. Pegou um lápis e escreveu num bilhete uma poesia besta de dias atrás.

Traçamos pra nós mesmos um objetivo translúcido
cuja nitidez nos escapa por um triz
e a sua verdade é tão definitiva quanto a morte
e tão rápida quanto a velocidade da luz.
Para alcançá-lo é preciso mais do que disposição
são necessários sacrifícios bíblicos
privações pelas quais nenhum santo passou
renúncias heroicas que ninguém jamais ousou
esforços que estão para além da própria humanidade.

E talvez, quem sabe,
se a vida agir com bondade,
poderemos transformar a merda em algo próximo de amor.

Mas nunca entregou.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

clóvis

Eu não me lembrava mais de quando o Clóvis havia tomado aquela parte minha, a boa e a ruim, tudo junto numa espécie de lavagem que se dá aos miseráveis, sem separar nada, devorando bucho e lombo com igualdade de apetite e paladar. Era como se do meu todo houvesse dois sócios majoritários de um quinhão que agora competia bem mais a ele do que a mim, não por obrigação dele ou negligência minha, mas porque, de alguma forma, me parecia que aquele cara fosse mais talentoso no que concernem essas funções artesanais, tão sutis, tão necessárias de perícia, e que eu tinha a incompetência inata pra realizar, admito. Aliás, sempre fui grosseira e estabanada demais pra certas delicadezas que a vida exige.
Certo dia, ele chegou aqui em casa antes do trabalho, umas sete horas da manhã, fazia frio e o dia era de um branco homogêneo e enfadonho, desses que encerram qualquer esperança que se possa ter. Eu vestia uma blusa de linha furadinha, sem nada por baixo, deixando à mostra qualquer coisa dos meus peitos que a gravidade ainda não havia cuidado de arrastar pra baixo, mas não foi proposital. Ele achou sexy. Sorri constrangida. Ele riu do meu constrangimento. O fato é que ele acharia sexy até se eu estivesse usando uma calcinha enorme e uma camiseta furada no sovaco e manchada de café. Por isso, a segurança que o tesão inabalável dele incutia em mim vinha na forma do reflexo desse tesão, equivalente em intensidade, força e de direção oposta, e era bem ali, no encontro dos dois vetores sexuais, que batíamos de frente como os animais que éramos e a porra toda passava a fazer sentido.
Tínhamos a fome diária um do outro como necessidade básica de sobrevivência, talvez fosse por isso que não conseguíamos ir pra lados diferentes, não tenho certeza. Talvez, além da fome extrema, houvesse um amor extremo. Ou talvez, ainda, tivéssemos juntado a fome com a vontade de comer, unindo nossas naturezas voluptuosas ao amor que tínhamos, alcançando esse raro êxito que se busca incansável e implacavelmente, remexendo em todo o lixo do mundo pra encontrar algo que preste, algo pelo qual realmente valha a pena tirar o corpo exausto da cama nas manhãs como aquela em que ele apareceu aqui, mas também não sei. Só sei que quando sozinhos nós não passávamos de dois universos caóticos e solitários, entorpecidos e imersos na lisergia alcoólica que amenizava a nossa existência decadente, ao passo em que juntos, tolerar o mundo era uma tarefa menos dolorosa, ainda que o fizéssemos entorpecidos e imersos na mesma lisergia alcoólica. Era mais fácil porque não estávamos mais sozinhos, tínhamos um ao outro pra suportar o horror da vida e, eventualmente, conseguir encontrar qualquer beleza assustadora nela. 
Eu estava sentada não completamente de costas pro Clóvis, que estava só de cueca esticado na cama, olhando-o com ternura enquanto falávamos sobre amenidades, fumando nossos cigarros e rindo de algumas idiotices. Ele me puxou pra perto e ficamos alguns minutos em silêncio, saboreando a tranquilidade doce e aparentemente inabalável daquele momento, como se não houvesse nada acontecendo lá fora.
Era bom, e eu gostava de pensar que aquilo é que era algo próximo à paz, não de espírito, mas de um sossego inatingível, plácido e nupcial, que, por senso comum, as pessoas são obrigadas a respeitar. A habilidade que tivemos pra atingir aquela perfeição nos conferiu o direito de termos um fim sublime que nos eternizaria: uma bomba acertando a cidade bem no meio, liquidando-nos de modo notável antes que a rotina e a convivência assassina o fizessem por conta própria, com a sua falta de estilo habitual, impedindo que elas transformassem a nossa ilustre tragédia em mais uma repetição senil de existências pouco imaginativas. Aquele era o momento ideal pra evitar que nos assemelhássemos às vulgaridades de novela, e tinha que ser feito logo, porque era maravilhoso demais pra que a feiúra da realidade manchasse-o com sua mesquinhez.
Quando ele levantou e se pôs a vestir, fui tomada por um tremendo sentimento de pavor porque eu ficaria a sós e de frente com o espanto do meu cotidiano outra vez. Clóvis foi embora. E me ocorreu que a verdade é que eu não era unicamente minha e nem o Clóvis exclusivamente dele. Sem querer, havíamos nos roubado um do outro, e eu já não podia dizer onde começava um e onde começava o outro, mesmo sabendo onde era um e onde era o outro. Mas no final das contas, foi como se disséssemos "Ei, toma! Esse lote é seu, cuide dele como você cuida do próprio cu" e virássemos as costas sem dar qualquer informação sobre o terreno. Eu tinha pena do Clóvis por estar ligado tão intimamente a mim, mas ele me sorria com a cara toda e, além do mais, me achava sexy, é claro.

terça-feira, 24 de setembro de 2013

da arte circense aplicada à mecânica social

- Sabe, Erica, essa sua personalidade de brucutu te prejudica muito diante da sociedade... as pessoas...
- O que tem elas?
- Não me leva a mal, hein.
- Desembucha, porra.
- As pessoas...
- Adquiriu gagueira agora, minha filha? E riu amigavelmente.
- É que as pessoas não gostam de você...
- Foda-se. Deu um trago prolongadamente forte no cigarro e olhou o dia leitoso sem considerar o que acabara de ouvir.
- Tá vendo? É justamente isso. Devolveu instantaneamente, como se já soubesse o que ela iria responder, tinha impaciência e depois generosidade na voz. Aquilo dava nos nervos.
- Elas não gostam de mim porque não me importo de que elas gostem? São mais imbecis do que eu imaginava...
- Não... Disse como quem está prestes a confessar um pecado gravíssimo. Elas não gostam porque você é estúpida, beberrona e não gostam principalmente da forma como você pensa, as agride porque as expõe, mesmo que não falem abertamente, entende? É como dar murro em ponta de faca, elas nunca irão admitir seus ridículos pessoais, cara. É mais fácil dizer que você é errada do que se assumir vazio e superficial. 
- Agora é minha responsabilidade se fulano de tal veste a carapuça e fica choramingando pelos cantos pelo idiota que é? Eu não posso fazer nada se nego enche a cabeça de rancor e resolve me odiar. E não quero fazer nada sobre isso porque não tenho que fazer nada sobre isso. Não tenho que ser venerada e não quero ser venerada por gente imbecil, isso só provaria que eu desci na escala mental, compreende? Respondeu com o tédio de quem se vê obrigado a dar prosseguimento a um assunto que não levaria à nenhuma conclusão diferente daquilo que acabara de dizer.
- Verdade... 
- Somos todos um bando de idiotas que se preocupa demais por coisas patéticas demais. Acrescentou em tom ríspido.
- Mas nem todos pensam assim, Erica. 
- Você é mesmo estranha. Não sei o que quer: primeiro concorda comigo, depois diz que outras pessoas não pensam da mesma forma que eu, e o pior, diz isso como se eu nunca tivesse reparado na disparidade de ideias entre uns e outros. Haha. Você sabe que estou dizendo a verdade e insiste pra que eu passe a agradar gente que não suporto. Como isso pode ser, digamos, sensato pra você? Não pode ser sério que você queira agradar gente que detesta... não tem lógica.
- Sim, tudo bem, concordo com isso, mas você não precisa mostrar esse sentimento. As pessoas se ofendem.
- As pessoas, as pessoas, as pessoas... você anda vendo novela demais. Então quer dizer que eu devo me preocupar diariamente com os frágeis sentimentos delas, zelar e cuidar pra que nada abale seus castelos de areia fantásticos, e suprimir meu desafeto só porque elas se ofendem com quem não gosta delas? PUTA QUE PARIU! Que tipo de gente tem necessidade de ser bajulada o tempo todo? Além disso, pra carência e insegurança existe tratamento que é feito por profissionais da área. 
- Haha. Eu sei que é idiota. Mas tive uma ideia: talvez você devesse se dedicar à caridade, ainda que somente pra se gabar dela. Você tem um coração enorme e podia se aproveitar disso... Disse-lhe sorrindo como uma mãe que diz ao filho problemático que ela não suporta que ele tem qualidades, apesar de tudo.
- Ah é? O que você me sugere? Será que eu devo ir a algum orfanato e limpar os banheiros? Eu poderia tirar foto abraçada ao mendigo xexelento que recita Nietzsche aqui na rua pra publicar na internet, e uma lendo Crime e Castigo pros presidiários do CERESP, e uma limpando o nariz de alguma criança catarrenta. Eu poderia executar com maestria todas essas ações visualmente impactantes que puxam a lágrima e fazem lembrar dos acordes musicais da Disney, especialmente aquele em que o macaco Rafiki apresenta o pequeno e fofo Simba à savana, mas lembre-se que a interpretação da Ivete Sangalo não surte o mesmo efeito, ok?
- Hahahahahaha. Você é ridícula! Hahahahahaha.
- E eu deveria fazer tudo isso usando uma camisa com os dizeres: "gentileza gera gentileza". Acrescentou com bom humor.
- Seriam belíssimas fotos, Erica. Respondeu com descontração.
- Daí eu ergueria meu pobre coitado, eleito pela circunstância da caridade o príncipe leão do momento, considerando os efeitos da iluminação sobre a cor, preferencialmente preta pra surtir o belíssimo efeito da diversidade, e colocaria um ponto final no meu estigma social e particular da vileza, enquanto continuaria sonhando com a eventualidade de um Pulitzer, agindo como quem não entende o motivo dele, como quem tem pouco talento pra fama, como quem nunca quis explorar a miséria humana, como quem não promove a miséria humana como entretenimento sádico, como se eu não fosse uma doente mental obcecada com a imagem de moça de família. 
- Pronto, apelou! Hahaha.
- Você acha que eu apelei? Olha, eu poderia ser realmente apelativa, elevar minha a falta de senso ao nível extremo, vestir o hábito da bondade falseada e me locomover com a superioridade que atribuirei arbitrariamente a mim mesma sem o aval de nenhuma autoridade do ramo. Andar por aí com a segurança elegante da Lady Diana e a humildade da Madre Teresa de Calcutá. Mas tudo mentira, claro. Eu poderia decorar um milhão de frases otimistas e digitá-las pros amigos virtuais, dizê-las aos conhecidos em apuros, às senhorinhas caquéticas nas filas dos bancos, e construir toda uma ficção em torno da personagem bíblica que as pessoas iriam aplaudir compulsivamente. 
Parou e respirou de cansaço e irritação. Olhou para a amiga que esperava ansiosa, como uma criança esperando a sobremesa.
- É, eu poderia, mas também não quero isso. Prosseguiu olhando através da janela, esquecendo-se momentaneamente que estava acompanhada. E não quero porque não tenho medo de ser declaradamente babaca, especialmente porque a babaquice é recíproca, e ela vem de todos os lados com o cheiro forte do peido de cerveja acompanhado de uma diarreia daquelas após um porre bem tomado, disfarçado de perfume francês em uma falsificação descaradamente porca. Não faço porque não preciso esconder preconceitos, nem torná-los segredos de estado de uma alma adoecida que se mata diariamente pra ostentar uma imagem limpa que esconde a podridão do fundo. Finalizou quase sem fôlego.
- Ai, credo! Que nojo! Disse-lhe a amiga sorrindo com ar de ojeriza.
Riu disso copiosamente e censurou o nojo alegando que todos cagam assim eventualmente. Gargalharam juntas e foram embora buscar um bar com cerveja barata.

O medo que as pessoas têm de ser escrotas: que circo! E a coragem que elas têm de esconder suas misérias pessoais atrás de si, enquanto transformam as dos outros em um espetáculo de autopromoção: que circo! Se os índios soubessem quantas pessoas fazem graça às custas deles, provavelmente dariam um tiro de zarabatana no meio do cu de muita gente. Jesus então... deve saltitar à direita de Deus-pai e mandá-lo foder com geral. Buda nem se fala. Isso sem mencionar a questão da Clarice Lispector, outra divindade cultuada na nova religião da era moderna. É um tremendo circo, daqueles com palhaços tristes, equilibristas pernetas, elefante cego e trapezista de cadeira de rodas. Arquitetam um show de horror capenga e ainda assim são profundamente capazes de se escandalizar por coisas tão pequenas, enquanto extraem a naturalidade com que essas miudezas deveriam ser vistas. Tomam qualquer fala de contrariedade como afronta, ofensa, injúria, ultraje e heresia dentro dos parâmetros retardados que definiram, e é um absurdo querer que a humanidade seja expurgada do planeta, caçada como um cirurgião que persegue obstinadamente um câncer, é pavoroso confessar a lástima da vida em sociedade, é proibido criminalizar eticamente a omissão porque ela é parte dos alicerces que sustentam a tenda furada que abriga os artistas de araque, e a verdade, sobretudo, deve ser economizada e restringida a quando for positiva. Eis a soberania das doutrinas circenses-sociais pra expandir o círculo de amizades convenientes e ser aceito, ser admirado, ser desejado, ser respeitado mesmo que não seja por quem realmente se é, mesmo que isso custe a melhor parte de uma existência. Que circo! O espetáculo é de péssima qualidade, a música é ruim e está agarrando, os números estão ultrapassados, e no entanto, são orgulhosos demais pra abandonar o palco. O show tem que continuar. Que maldito circo...

segunda-feira, 8 de julho de 2013

café e amor

Podíamos perceber o dia claro lá fora pelas frestas da persiana grená, já meio desgastada pelo clima e pelo tempo, enquanto nós dois, embolados no edredom florido e envoltos na névoa acinzentada de nicotina, o ignorávamos com a arrogância tipicamente humana, como se não fosse nada. Você com a cara enfiada no meu pescoço pra sentir o cheiro fresco de banho, pesando gostosamente no meu ombro esquerdo, é, eu gosto de deitar na beirada, também gosto de sentir a sua respiração alta e franca em mim, e então você adormece subitamente, doce e inocente, na tranquilidade de uma criança despreocupada. 
Daqui de dentro somos apenas parênteses no mundo, uma ruptura gentil no tempo, a paz por dentro do caos febril da cidade, a calma deliciosa e indolente diante da impaciência da vida, e eu me sinto como em Samba e Amor do Chico Buarque, à exceção do samba que não faço mesmo, confesso, o que me compete é o amor, uma arte obscura que requer habilidades que ainda não desenvolvi, mas acredito que eu esteja no caminho porque você pega minha mão e me conduz por essas trilhas confusas e bifurcadas sem titubear, sem nunca ter dúvida sobre nada, enquanto eu, por outro lado, esse poço de incertezas, vou como um burro empacado que você tem que fazer força pro animal ir pra frente. Mas vou, ao menos tenho ido.
Penso que você fica simplesmente deslumbrante esticado na minha cama de solteiro, essa ideia me consome em forma de um tesão meio desesperado, e começo a deslizar a mão pelo seu corpo inerte, numa ação meio necrofílica, é bom porque macio, vou primeiro nas costas, seu ponto fraco, depois nos braços, nas bolas, quero fazer amor, beijo sua testa com toda a ternura que me é possível, sem que você veja fica tudo mais fácil, mas você dorme um sono profundo, tácito, mole e prolongado.
Já não penso no seu pau. Paro e te observo por minutos que não consigo precisar, suas pálpebras cerradas com a aderência de uma super-cola, os lábios antes carnudos estão agora inchados, bem como o nariz, e já não penso no seu pau, você mexe os pés como quem está confortável demais pro esforço de se inclinar pra coçá-los, eu continuo a te olhar com mais amor do que antes, provavelmente mais do que nunca, talvez o silêncio de fato precipite o afeto, mas não tenho certeza.
Levanto-me e vou coar café, e nesse momento há no meu peito mais sentimentos do que já tive durante a vida inteira. Ao retornar ao quarto que cheira a sono, segurando a minha xícara fumegante e perfumada, sento-me de costas pra você, que chama meu nome delicadamente, mas quando devolvo a atenção você já está virado pra parede a dormir com a brandura habitual. Eu sorrio um riso mudo e leve pelo seu inconsciente ter me buscado, pego um bloco e ponho a escrever porque eu não estou pensando no seu pau. Juro.

terça-feira, 21 de maio de 2013

não faça nunca o que precisa ser feito ontem

Seu desejo era a liberdade, um 1968 francês particular, o próprio grito do Ipiranga porque uma hora cansa e cansou, cansou desde quando a memória conseguia alcançar e olha que tinha a cabeça muito boa. Era  um cansaço bafiento de verão, desses em que a força de vontade é suprimida pelo calor sufocante, com as calçolas infantis suadas, tez, têmporas e ancas também suadas, tudo um horror úmido e brilhante, mas era isso por dentro e de dentro pra fora. E fora era o tédio, o fastio, refeições feitas às pressas, atividades domésticas que odiava executar, talhos nos dedos finos, unhas por fazer e coisa e tal. Dali da sua caverna abafada, através de algumas fissuras, via o mundo girando lisergicamente e ela o observava com o olhar desinteressado e míope, o que estava à distância era embaçado e disforme, o que enxergava de perto era deformado e asqueroso, mas era o movimento que chamava a sua atenção, a beleza e a monstruosidade daquela roda gigante entorpecida, ensopada de misérias e grandezas supremas atreladas umas às outras, como uma grande molécula que você pode manipular a grosso modo. E de fora para dentro, ao voltar a cabeça para o interior, era o regresso ao misantropismo de sempre, com as pessoas de sempre e outras pessoas pra encher a paciência tanto quanto pelos púbicos possuía. O aroma do ambiente era a mistura do cheiro de peido do feijão recentemente cozido, com o do café recentemente coado e com o da nicotina recentemente tragada, um cheiro agridoce meio adstringente que fazia a língua grudar por dentro, como se tivesse tomado um copo de cimento. Olhou para a pia e viu uma montanha de pratos, copos, panelas e talheres com comida seca e encrostrada, foi quando se deu conta de que a sua vida havia se reduzido a lavar louça. Desjejum, almoço, lanche, janta, e a sua vida era somente uma ação cíclica de lavar louça. Pensou no medo de não ser grande nunca, grande figurativamente e nunca literalmente, sobrando-lhe o pavor oscilante e nauseabundo, que obnubilava o eu por cima do eu e por cima de outros eus até que chegasse a ela, até que o eu fosse apenas uma imagem turva e distorcida de quem era. E o medo lhe figurava como uma criatura gosmenta que rastejava pelas frestas, pegando-a no encalço quando estivesse lavando as putas das louças, ou simplesmente no momento íntimo de desdém, em que estaria se olhando no espelho do banheiro após o banho, nua da cintura pra cima, reparando nas gotas que escorriam dos cabelos molhados até o bico endurecido do seio esquerdo e mergulhando no precipício da insignificância, tendo completado a missão do simples compromisso biológico. Sentiu uma pontada na bexiga e sentiu que precisava mijar, voltando a si, resolveu que seria melhor deixar a revolução para depois, tinha mais o que fazer. Às louças.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

brincadeira distorcida de criança grande


- Não, eu não preciso de tantas justificativas que mais parecem discursos políticos ensaiados, frases simuladas e planejadas, porque já me sinto estúpida o suficiente, então seria de extremo bom tom que você dissesse logo que o sexo é sensacional e deixasse essa baboseira de lado, sabe? A gente encaixa, torcemos pro mesmo time e gostamos de encher a cara, eu sei, sei disso tudo, acontece que seria mais confortável caso você se limitasse apenas ao “só quero te comer”, não fico nem um pouco à vontade com esse papo de que você não me acha uma pessoa de merda, o que é difícil de acreditar pois eu realmente sou uma pessoa de merda e vou fazer alguma burrada no meio do caminho que será irreversível e já tentei alertá-lo um porrilhão de vezes e você ignora e, honestamente, não sei dizer se isso é bom ou ruim. Mas cá estamos nós dois atribuindo um pouco de decência a seja lá o que for isso que estamos fazendo. Eu muda, tentando achar uma forma de dizer de maneira compreensível o que penso, e você pensando que eu não quero papo, enquanto te olho de lado e observo sua expressão cabisbaixa, frustrada e magoada e aquilo é minha culpa e desculpa mas ei, eu quero conversar sim, só não sei como, ok? Sempre fui péssima falando, sério. Eu quero te dizer que não sei lidar com a expectativa alheia, nunca soube, não quero te decepcionar e partindo da premissa de que somos humanos falíveis, eu vou cagar com alguma coisa e sairemos magoados e separados e endurecidos e perderemos um pouco mais da mágica que ainda resta em nós e nos faz sempre tentar mais uma vez, não quero que você perca a fé. E eu gosto da sua fé e da sua mágica que você executa tão habilmente como se tivesse sido o mestre de Houdini, fazendo o truque mundialmente famoso que manda a centelha ruim pro inferno e deixa no lugar um gloss de morango com glitter daqueles de criança, mas você não sabe o que é um gloss, nem glitter, muito menos um gloss com glitter então é melhor eu não colocar as coisas dessa forma, provavelmente vai me achar uma doida varrida ou uma retardada e eu só quero que você ache que está tudo bem eu ser como sou porque pra mim está ótimo você ser como é, recíproca é uma das coisas mais lindas do mundo. Meu olho ameaça expulsar a beleza de tudo que eu pensei pra te dizer e você continua com uma tremenda cara de cu e era tão melhor quando você estava sorrindo expansivamente no palco do seu teatro grandioso fazendo mágicas pra mim. Eu também sou uma mágica e você não sabe, meus truques são os asquerosos “estrago a pessoa adorada em sete dias” e “vou te frustrar até você me odiar”, mas quer saber? Esses são atos conhecidos e desgastados, quero me aposentar e passar a vez a um profissional muito melhor do que eu. Tento te contar da navalha que eu tenho atravessada nesse meu coração meio morto, zumbizado, meio sonso e derrotado mas não dá certo, minha dor te incomoda, deve ser chato eu falar de alguém que me tenha tocado antes de você e me ferido antes também, é melhor eu parar pra não te arrastar pro meu parque de diversões melancólico em um dia cinzento e triste. É tão difícil soltar a sua mão agora, mesmo tendo dito pra você ir.
Não foi. Ela aliviou. Beijaram-se.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

do gozo se vem e pelo gozo se vive

Com uma das mãos ele desceu a alça da camisola de seda dela com a delicadeza que nunca teve, a outra tratou logo de embrenhar pelo occipital menor - aquele trecho que compreende a nuca e a parte atrás da orelha -, enquanto olhava dentro dos seus olhos escuros. Sentiu na pele áspera dele a pele lisa dela e a temperatura baixa daquele corpinho trepidante que poderia retorcer se quisesse. Mas não queria. Toda a gentileza e carinho eram apenas pretextos que dissimulavam a sordidez dos seus pensamentos. Queria comê-la ali mesmo sem se importar com as roupas ou se a camisola entraria junto como uma camisinha. Mas não podia. Amabilidade era o caminho moralmente aceito que o levaria até o par de vulvas que ela tinha entre as coxas.
De longe eram apenas silhuetas safadas no escuro, mas de perto não passavam de duas criaturas patéticas na noite que tentavam, sobretudo, dignificar um pouco essa qualquer coisa animalesca que conduz os seres humanos ao sexo. Pessoas... essas criaturas odiosas e repugnantes que são capazes de ferir e violar por uma gozada. De dizer para depois desdizer por uma gozada. De fingir por uma gozada. De mentir e ludibriar por uma gozada. De deixar um rastro de bosta, de tristeza e de horror por uma gozada. E uma gozada dura 30 segundos.
Acariciou sua bunda redonda, apertou seus peitos como um peão ordenhando uma vaca, ela correspondia com equivalente lassidão, deslizando suas mãos pelo corpo dele em um ciclo que sempre terminava no pinto. E os gestos dela eram como um hamster fazendo trajetos em uma gaiola apertada. Da casinha para a roda, da roda para a plataforma, da plataforma para a escada, da escada para a roda. Do pescoço para o peitoral, do peitoral para as costas, das costas para a bunda, da bunda para o pinto. Aliás, o homem é um pinto e pintos não são espertos.
O mundo está entupido de gente. Gente que se encontra abaixo da linha de pobreza, tem dez filhos e ainda quer uma gozada. Políticos que constrangem suas famílias por uma gozada. Até o PC Farias adormeceu, foi alvejado na cama e morreu de bobeira por uma gozada. O cara vai pra noite por uma gozada. A mulher vai pra noite atrás de uma gozada. E não, não recebem um troféu por isso, nem uma medalha de honra ao mérito ou uma estrelinha dourada no caderno como congratulação. O prêmio é apenas mais uma dúzia de gozadas, o que reduz uma espécie inteira a um grande e melado esporro.
Transaram como bichos. Ao final, ela deu de ombros e acendeu um cigarro. Não queria papo, só queria ver aquela coisa longe dali. Ao perceber isso, ele se mostrou um homem confuso e estúpido, perdido e sem condições de exercer a função secular que lhe foi designada de se sentir a última folha de coca da Colômbia após uma trepada. Pra duas pessoas que buscavam apenas orgasmos, até que estava de bom tamanho. Ela conseguiu e ele, apesar de tudo, se sentiu diminuído e usado. Tudo no seu devido lugar.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

reflexões escritas no balcão de uma lanchonete da rodoviária de juiz de fora

Então eu estava ali mofando na rodoviária porque depois de perder o ônibus por dois dias seguidos, não quis correr o risco e acabei exagerando no chegar mais cedo por isso cheguei cedo demais. Duas horas de espera curtindo uma ressaca de leve, aliás, havia tempo que as rebordosas alcoólicas eram tão intensas que um simples desconforto físico já me figurava como motivo de celebração. Pois bem, eu estava sentada pensando sobre a grande escritora que nunca serei, sem protagonizar uma propaganda da Nextel contando minha história de superação na vida, omitindo as cagadas e os podres só pra poder conferir a aura de respeitabilidade do Cristo escorraçado e crucificado, esparramada naquele banquinho e muito puta da vida por ter que gastar dinheiro pra reaver meus pertences, além de ter que olhar no focinho mal esculpido da minha irmã, que pretende me extorquir uma quantia exorbitante considerando o tempo que morei com ela no Rio de Janeiro. O que me incomoda mesmo é ter que vê-la com aquela cara meio estranha aonde só se nota a gengiva superior saliente demais que sorri esguichando peçonha, a testa imensa que começa no meio do crânio como um homem calvo e é enxergar tudo isso de perto sem poder dar um murro, um soco apenas, nada mais e foi quando comecei a me sentir péssima de verdade por querer enfiar a mão no rosto de macho dela. Zaaaaas! Acabou de passar um homenzinho deficiente em um skate, a falta de mobilidade bípede foi suprimida por um par cintilante de luvas verde-bandeira, mentira, nem sei o que é uma cor verde-bandeira, que protegiam as suas mãos durante remadas frenéticas, deslizando pelo piso liso, deixando o rastro no ar do seu Zaaaaas alucinado e aquilo é dotado de uma coragem imensa ou extravagância absurda que não consigo exprimir e me ocorreu que talvez seja ele quem mereça uma propaganda da Nextel ou um programa inteiro em sua homenagem e é mais merecedor disso do que eu. E toda vez que vejo cenas desse naipe, me compadeço e passo a achar o mundo tão lindo como deveria ter achado a vida inteira, ao invés de odiá-lo a cada segundo por toda a minha existência como sempre fiz. E aqui estou eu me perdendo em digressões quando, na verdade, eu só queria contar que senti um perfume misturado ao meu e que os dois juntos formavam precisamente o cheiro ao qual já estou me acostumando de forma arriscada, principalmente porque sou uma pessoa de hábitos perigosos, estúpidos e masoquistas, e o odor algemado às minhas narinas me fez perceber que até gostava daquilo de uma maneira melancólica e insana, como tudo que é próprio de mim, quase senti uma saudade meio doida que já nem sei definir se é carência ou vontade, só sei que vai acabar em merda...

terça-feira, 20 de novembro de 2012

crônicas da carioca do brejo IV – mostrando a bunda no centro da cidade


Sempre gostei de me considerar uma cidadã de bem. Falível como qualquer ser humano, mas de bem, o que é absurdamente diferente de ser uma cidadã exemplar. Sou uma cidadã de bem que precisa comer, comprar cigarro e custear a cerveja. Entretanto, como tudo tem o seu revés, nem alimentação e nem bebida caem do céu, o governo continua exercendo sua função constitucional que lhe outorga o direito de pisotear o povo, além do fato de que a Souza Cruz e a Ambev ainda não fazem caridade, pelo menos até onde eu saiba. Por isso me vejo dependente de um ofício, um trabalho preferencialmente lícito, do tipo que não envolva caftinagem, tráfico, lavagem de dinheiro ou extorsão. Partindo dessa premissa romanesca do dinheiro suado e da consciência limpa, imprimi vinte currículos e resolvi distribui-los pelo centro da cidade. Passou da hora de eximir meus pais da responsabilidade de bancar as minhas extravagâncias. Preciso ser justa.
Justiça. Tenho pensado muito nessa palavra, especialmente sobre como até quando tentamos aplicá-la da melhor maneira possível, continuamos um bando de cretinos. Mesmo sendo justos, somos injustos. Socialismo. Capitalismo. Nazismo. Liberalismo. Conservadorismo. Pacifismo. Neoliberalismo. Terrorismo. São todos ótimos exemplos de tentativas frustradas de consertar as coisas de alguma forma. O problema das civilizações sempre foi esse: quando acertavam de um lado, cagavam do outro. A Grécia, por exemplo, fundamentou a democracia que conhecemos, pena que ela só funcionava para os eupátridas, ou seja, homens gregos e ricos. O resto – estrangeiros, pobres, mulheres, escravos e crianças – que se fodessem pra lá enquanto uma minoria de lunáticos decidia a vida de milhares de pessoas. E aquilo era a melhor justiça. Foi como escolher um detergente escroto na prateleira do mercado: não é bom, não tira a gordura e os germes, só dá um aspecto de limpeza. E até hoje abrimos mão de tomar decisões, delegando-as a gente ainda mais gananciosa do que nós mesmos. A áspera realidade é que não queremos ser diretamente responsáveis pelas guerras, pela inflação, pelas chacinas, por programas assistencialistas de administrações populistas, pelas almas que o narcotráfico leva, por mensalões. Ninguém quer que esse abacaxi fálico atravesse nossos cus diariamente a cada vez que lermos ou assistirmos o noticiário. O sangue pode até escorrer pela crosta terrestre e gotejar no Cosmos como uma torneira mal fechada, contanto que não sejamos nós a assinar os documentos que viabilizam as barbaridades. A solução é desviar o olhar, permitindo que desempenhem esse papel repugnante enquanto nos reproduzimos e fingimos ter controle sobre as coisas ou que somos felizes e …
… quando me dei conta, meu vestido havia alçado voo até a cabeça. Fiquei com o rabo de fora em pleno centro do Rio de Janeiro quando passei pelas frestas de ventilação de um banco. Segurava na frente e subia atrás, segurava atrás e subia na frente. Juro que mais de trinta pessoas assistiram a cena digna dos programas medonhos que passam na TV aos domingos.  Não que eu tenha algo de excepcional a mostrar, porque não tenho mesmo, só sei que a Marylin Monroe se tornou uma garotinha do coro da igreja. E eu… eu estava lá mostrando minha calcinha branca e enorme na metrópole. Agora posso dizer que tive uma estreia triunfal na cidade maravilhosa.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

um assunto que ficou pela metade

- Não tô com o coração partido, tô com a alma partida, entende a diferença?
Disse-me depois de concluir que não sofria de desilusão amorosa mas sim de desilusão humana. Esse tipo particular de decepção sempre me remete à ausência de vida e não estou falando no sentindo biológico, é algo próximo à preguiça de existir, de estar sem ser, de ser nulo ou de estar nulo. Chame a isso de qualquer coisa, não importa nem um pouco porque uma definição aqui ainda seria insuficiente. No entanto, sempre me ocorre a imagem pálida e flutuante de alguém caminhando até à padaria na velocidade de um verme debaixo do sol quente, com toda a metodicidade cabível ao ato, sem conseguir variar o trajeto, mudar o lado do passeio, observar o que não seja o habitual, como que por medo de fazer algo diferente e sair da margem de segurança ilusória, criada pra não se transformar num paranóico ou num demente.
O que fica escancarado é a espantosa falta de vida em tudo. Enchem a cara, lêem, escrevem, masturbam, ouvem, falam, rezam ou fodem com a mesma paixão de quem está num velório. E é preciso saber fazer isso com toda a peculiaridade possível, mas até mesmo as ações corriqueiras e de simples execução parecem estar contaminadas por essa indolência, de forma que coisas tipicamente humanas estão se tornando imperícias humanas, senão atividades humanamente impossíveis.
Essa é uma época em que a informação tem o valor do ouro, entretanto, quanto mais as pessoas conseguem aprender sobre qualquer coisa, mais animalescas se tornam e mais negligentes ainda com o que realmente lhes aperfeiçoaria, embora isso não constitua nenhuma novidade. Então fico pensando que talvez teria sido melhor se tivéssemos continuado com nossos costumes aborígenes, vivendo em choupanas, andando pelados por aí e tomando água de coco sentados à sombra de uma palmeira.
Acendi um cigarro e dei uma golada naquele café já meio frio, retorci os lábios e disse que "entendo perfeitamente a gênese do seu imbróglio, no entanto, o que não compreendo é você estar com sua alma partida e continuar a parti-la". Sabe, é serviço de português. É enxugar gelo. É dar murro em ponta de faca. É uma infinidade de frases feitas que até poderiam estampar cada dia de uma agenda. "Portanto, se está sofrendo de desilusão humana e persiste nessa coisa toda, então você é meio retardado", continuei. E ri. Não por ter visto piada naquilo, mas porque me passou pela cabeça que ele poderia ter ficado ofendido. Não é todo mundo que continua receptivo depois de ser chamado de retardado. E naquele caso ele realmente estava sendo.
- É assistir a minha, a sua, a nossa miséria humana num rosto namorado. Mas a questão nem é essa mais, se fosse só isso tava legal. É repetitivo, triste, castrante.
Disse-lhe que gostar de uma pessoa não deveria implicar repetição, castração e tristeza. Disse isso mesmo sabendo que a convivência é assassina e que é justamente a isso que as pessoas costumam reduzir não só os seus relacionamentos, mas a própria vida também. E o pior, realizam essa tarefa com o brio que lhes falta em todo o resto, mantendo seus narizes empinados e ostentando caras esnobes como se estivessem fazendo algo louvável, digno de aplausos e reverências subservientes.
Apaguei o cigarro e me despedi porque tinha mesmo que ir. Nunca mais tocamos no assunto.

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

pelo menos através da janela eu consigo ver a luz

Num daqueles papos que costumávamos ter durante a caminhada, o B. nos contou que ele havia galgado sete anos da sua vida em frente ao computador, observando de rabo de olho uma parede verde durante todos os dias, disse que depois de aposentar continuaria vendo aquela mesma parede verde. Eu passei muito tempo em frente ao computador, dentro do meu cubículo que às vezes costuma atender por quarto, mantendo uma relação equivalente - e até meio sórdida -, com a janela. Aliás, ela sempre assumiu a forma do atalho imaginário que eu escolhia pros meus problemas. Colocaria minha bunda branca ali, jogaria o corpo pra frente e pronto. 
Nunca o fiz, claro. Sobretudo porque não acho que seja a hora, talvez uma bigorna me atinja antes que eu crie coragem de me impulsionar pra fora do parapeito ou qualquer coisa assim, não sei. Só tenho medo de que tanto um acidente quanto um salto fatídico me ocorram ou tarde demais ou cedo demais. Então encerraria minha participação patética no mundo ou como um talento prematuramente desperdiçado ou como uma fracassada suicida. Ainda não determinei qual será o momento exato em que deverei sair de cena, a idéia é algo como quando um jogador decide que vai deixar os gramados no seu auge, ao passo em que outros insistem e acabam cagando com tudo. Ou como a Amy Winehouse que se foi antes que virasse uma Whitney Huston. Tanto faz. Por isso entenda que quero perder as chatices dos coquetéis mas também não quero comer restos no lixo. Portanto, o que me falta mesmo é o timing.
Considerando que abri mão de ser diplomada, a ácida realidade é que não irei desfrutar de um emprego em banco recebendo um salário generoso, não irei me relacionar com milionários e sequer receberei cem paus por um rolo de papel higiênico. Todavia, não é isso o que eu priorizo, muito embora tenha sido precisamente isso o que considerava ser felicidade há uns sete anos atrás. A típica felicidade de merda, traduzida em objetos que decorariam uma casa fria e estúpida, com alguns quadros de algum pintor da moda pra quebrar todo aquele gelo e distanciamento, aonde eu receberia meus amigos igualmente estúpidos e frios com suas conversas repletas de certezas, cotações e problemas conjugais ou triunfos financeiros e conquistas tão baldadas quanto a própria vida deles. De modo que não haveria outros meios disponíveis pra me tornar ainda mais ôca.
Minha objeção às convenções e regras é insistente pra que eu não me torne vazia de vontade própria. Objetivamente, não há vantagem alguma em estar atrelado a um estilo de vida imposto por algum babaca montado na grana e que, obviamente, só intenciona perpetuar a ilusão do seu status. Aliás, não existe diferença entre um animal de tração com antolhos e uma pessoa que se devota à escravidão mental, exceto pelo fato de que um ser humano, normalmente, o faz com voluntariedade.
E bem, confesso que por essa minha total inclinação à contravenção, as minhas perspectivas não são nem um pouco animadoras, contudo, no que concerne a anulação de si mesmo, as minhas chances de seguir a vida como uma vaca de presépio são menores do que as dele. Além disso, a janela permanecerá ali: solícita, gratuita e à espera. Porque tudo espera até mesmo a janela, essa ou qualquer outra em qualquer outro lugar. Ao contrário de uma parede verde, que não permite que nada entre, que nada saia e, menos ainda, é capaz de eventualmente resolver os problemas de alguém.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

nem alívio e nem ojeriza

Lavantei cambaleando como a bebum que encarnei naquela madrugada e senti na boca um gosto medonho que se aproximava de querosene. Resolvi que precisava me contemplar pra ter noção do estrago e então fui abrir a porta do armário, mas aquela simples tarefa se realizou com a dificuldade de quem tenta empurrar um elefante. Deparei-me com um rosto que nem de longe se assemelhava ao meu, aliás, não me recordava de ter aquela expressão patética de quem está sentindo pena de si e bem, talvez fosse culpa da ressaca, mas é sério que a minha memória apontava pra uma mulher que ostenta uma fisionomia muito mais firme. Só que a minha cara estava amassada demais, os olhos tinham remelas demais e foram se descolando com relutância, como se depilassem meus cílios. A cabeça doía e a própria vida me doía ainda mais do que a cabeça, de modo que tanto a cabeça como a vida me eram incômodas e pensei que "puta merda, eu só preciso de uma cerveja agora pra amenizar a desgraça".
Havia vários dias que eu acordava com umas idéias esdrúxulas e com a vontade áspera de encher a cara porque é assim que funciono: busco a saída fácil pros meus pequenos problemas e apelo aos recursos óbvios pra aliviar o vestígio daquele sentimento injustificado ao qual não consigo dar um nome, mas que é chato e faz com que me sinta ainda mais estúpida. Seguia me arrastando pelos cantos ao longo do dia à espera ou da cerveja ou da inspiração que não chegavam nunca, a primeira pela falta de grana e a segunda pela falta de ânimo. Mas sempre as esperando como o crédulo acredita na vinda de Jesus de Nazaré. E a tarde correu no marasmo e improdutividade de sempre, comigo obervando as paredes, sentindo dificuldade até pra escolher a música que queria ouvir e percebi que já nem queria ouvir música, pelo menos as minhas músicas, queria as músicas dos outros e até mesmo a vida dos outros, na verdade eu queria qualquer coisa que não fosse minha e não me fizesse lembrar de mim.
Aquele horário, 18:26h da tarde, era o pior porque nunca favorecera meu estado de espírito, afinal, essa parte do dia sempre chegava inevitavelmente carregada da angústia mórbida da transição, acentuada pela sensação de inutilidade que me persegue desde quando já nem lembro mais. "Sabe aquele momento em que você não consegue dizer se sente alívio ou ojeriza?", havia questionado e a pergunta martelava junto com a enxaqueca. Foi quando percebi que não era nem uma coisa nem outra, o sentimento inominável era saudade.
Saí pra comprar a birita pela qual clamei desde o momento em que acordei. Fui a galope até o disk cerveja e as adquiri com a veemência de um viciado em crack. Quando cheguei, abri a primeira e estava quente, reclamei. Abri a segunda, desceu um pouco melhor. Abri a terceira, estava OK. A quarta, normal. A quinta, sem graça. E no final das contas, fora como se eu estivesse tomando Kaiser. Nunca beber tivera sido tão pobre de vontade como naquela noite fria e... prometi que seria a última vez que tocaria no assunto, porque nenhum sacudo tem o direito de brochar uma mulher que quer ficar bêbada.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

botão vermelho de emergência

Eu falhei. E não foi apenas nessa ou naquela coisa, deu tudo errado e tão errado que já nem sei se ainda estou no direito de ousar ter aspirações. Não me competem, não são pra mim, sequer me apetecem, me dão preguiça de vontade, sobretudo porque, de alguma forma, sinto que não sou mais digna delas. E às vezes desespera tanto que é como se estivessem me estrangulando e eu não conseguisse soltar um berro.
Queria mesmo que uma bomba caísse por aqui e pusesse fim a esse viver desengonçado, trôpego e inútil, mas isso não vai acontecer, não permitiriam. Se fosse pra acabar com todo esse sofrimento de uma vez, eu mesma teria que pôr as mãos na massa e fazer tudo sozinha, então seria mais fácil deixar de lado os planos de aniquilação em massa e me foder por conta própria, mas isso também não permitiriam.
Olhei através da janela e vi o tempinho enfadonho, cinza, com a chuva caindo indolente como tudo o que ocorre por aqui: devagar e enervante. E dói. Talvez seja isso o que, eventualmente, vai me levar à loucura. Sempre penso nessa coisa de sanidade, tentando desvendar os mistérios do limiar que separa a lucidez da maluquice total. Então fico imaginando se ainda não ensandeci ou se estou doida há muito tempo. A impressão que tenho é que, se a insensatez ainda não me dominou, ela é iminente e falta só pressionar aquele botão vermelho de emergência como os dos filmes, que servem tão somente pra solucionar qualquer problema que o roteiro não consegue fundamentar. É questão de apenas um empurrão pra eu mergulhar de cabeça no penhasco.
Senti o fastio da existência comprimida em um quarto e caminhei em direção à porta, minha visão se desfez e refez e então não era apenas uma única porta, mas duas. Cristo, como se já não bastasse o resto da vida, agora me pediam pra escolher entre duas malditas portas. Abri a da direita e um gorila de três metros ameaçou saltar sobre mim, com dificuldade a fechei e permaneci olhando a outra porta com desconfiança. O que mais falta agora? Abri a da esquerda e estava escuro, não enxergava um palmo à frente do meu nariz, então hesitei. Porém, acabei dando alguns passos tateando o chão no breu. Cambaleei na beirada do fosso e caí resignada, porque a queda é livre e é inevitável.
Assim é a loucura: ela avança a passos largos com relativa discrição mesmo no momento que a precede. Quem sabe seja esse mesmo o meu destino, andar por aí babando pelos cantos da boca e esparramando minhas roupas e calçados pelo prédio, tocando campainha da casa de desconhecidos, cheia de pasta de dente na cara e xingando os outros, como tem feito a minha vizinha. Eu a invejo pela ausência de remorso e culpa, pela possibilidade de poder ser livre e genuína cem por cento do tempo e cagar em cima do resto. E todo o mundo sabe que o conhecimento que as pessoas têm da sua piração é diretamente proporcional ao quanto vão encher o seu saco. Portanto, a insanidade acaba se revelando, de uma maneira ou de outra, a absolvição.      
Não consigo precisar o tempo que demorei pra alcançar o chão, no entanto, quando aconteceu, só houve um  barulho abafado como um grande saco de merda atingindo o solo de uma cavidade estreita, respingando o entorno e deixando um cheiro desagradável ali. Era só bosta quente e ossos quebrados. Era também a solidão absoluta. Foi quando percebi uma claridade intrusa que vinha de uma pequena passagem por onde eu deveria me rastejar para retornar ao ponto de partida. Tentei me mexer mas minhas pernas estavam quebradas tanto quanto podiam estar. Continuei estática, vencida e entregue como a boa perdedora que sempre fui, porque ali era também a paz e o sossego que me faltavam.       

sexta-feira, 6 de julho de 2012

detalhes ou i hope i die first

Com um ponto de interrogação luminoso e insistente na cabeça, eu permanecia encarando o espaço do site aonde eu deveria dizer quem sou eu. Pra que serve essa palhaçada afinal? Quem me conhece sabe como sou e quem não me conhece direito acha que sabe o que eu sou, visto que estão continuamente atentos ao que somos e não ao quem somos. Pensei que deveria me por a escrever alguma coisa impactante desse naipe, mas também não sou boa nisso.
A coisa se complicou porque sempre gostei de preencher as lacunas dizendo que sou esquisita pra caralho, quando o que me falta mesmo talvez seja talento. E
talento pode ser substituído por compostura, paciência, doçura, beleza, lucidez, inteligência, dinheiro e outras palavras de merda na lista dos itens que me escaparam na vida. E escaparam sempre com a relevância de quando alguém muda a posição do maço de cigarros e eu não percebo, porque são pormenores importantes apenas pra um decorador. Coisa que não sou e que meio mundo pensa ser. Particularmente, nunca tive habilidade, competência e atenção pra detalhes, aliás, nunca os entendi e eles nunca se entenderam comigo.
É como ouvir minha mãe dar ataque porque minhas roupas estão em cima da cama, é só um detalhe. Ou como ver gente que liga pro tênis que a outra pessoa usa, é só um detalhe. Detalhes são sempre absurdos. Normalmente funcionam como elos frágeis que alguns utilizam pra transferir seus preconceitos sigilosos a alguém posto que carregá-los sozinho é dificil, mas sempre esperando que esse alguém cumpra com maestria o papel que se designou arbitrariamente. É insano.
E é também apenas outro detalhe por dentro dos detalhes, de aspecto podre e do qual se desvia os olhos pra conseguir ostentar a fisionomia despretensiosa de paisagem e depois agir como quem diz veja como sou indiferente e confio no meu taco, mesmo que na verdade não passe de um merdinha inseguro e siga a vida se borrando de medo.
Sou uma mulher inflexível com gênio de cão, por isso nunca me dei bem com gente que se dedica a vender estereótipos sob o pretexto de detalhes e sempre bati de frente com quem tentou me empurrar essas demências goela abaixo. Mas, sobretudo, nunca tive um pingo de respeito por quem está comprando as idéias mais erradas o tempo todo porque tem receio de coisas insensatas. Seria melhor baixar as calças e ter uma diarréia em cima da letra de Metamorfose Ambulante de uma vez.

O ridículo é que o esforço para se dar o respeito é tanto que o esfíncter se aperta e então um charuto poderia ser cortado ali.
Sumariamente, esse esforço não passa de mera falta de argumento no momento em que não se consegue justificar as próprias escolhas. Um asno junta com uma dúzia de asnos pra convencionar uma dúzia de regrinhas pra apoiar suas decisões, outra dúzia de asnos vai passar a seguir e, sendo assim, a coisa irá crescer em uma progressão geométrica de razão doze. Isso é taxa de contaminação de uma peste bubônica.  
Os hábitos de quem acredita ser caso de vida ou morte se justificar o tempo todo, justificar todo o tempo qualquer coisa e simplesmente se vê incapaz de fazê-lo, são tão mecânicos e obsessivos que devem até causar LER. Não há razão de ser em tanto esforço prosseguido e repetido pra viver, principalmente se for pra existir de uma maneira tão sufocante, com as pessoas sentadas nos seus espaços minúsculos, todas reprimidas, vazias e assustadas mas ao mesmo tempo orgulhosas e satisfeitas por estarem assim. Eu espero morrer primeiro antes que isso se abata sobre mim.

domingo, 1 de julho de 2012

a verdade nos olhos dos outros é refresco

Você é uma puta!, o cara esgoelou no meio da multidão quando dela ouviu um não. Era uma loira de cabelos curtos e bem cortados, alta, esguia, com tudo no lugar, usando um batom vermelho e um vestido azul marinho não muito curto. Estava bonita e aquela atitude não passava de despeito. Ela o fitou de cima a baixo cinicamente. O sujeito era uma gracinha mas fodia mal, tiveram um caso de uma noite só tempos atrás. Sem pestanejar, retribuiu com desprezo mas você não soube me comer, seu merda!, em som uníssono e a fim de que todos os amigos dele a ouvissem. Riram, eram igualmente previsíveis.

O problema de quem se superestima e se leva a sério demais é justamente este. Quando as crenças são deitadas abaixo, o que resta são os escombros daquilo que já fora catedrático. Por esta razão, quase ninguém gosta da verdade, aliás, a verdade só é admitida até certo ponto, somente até aonde não se é afetado por ela porque ridiculariza em níveis que o ego não suporta. Muito embora a consciência agradeça, mesmo que ela pouco importe no pesar da balança. Consciência é desnecessário quando se veste uma roupa legal. Mais ainda quando você, com sua roupa legal, pode arrumar alguém para foder. Para o inferno com a consciência se o teatralismo te rende uma gozada numa noite aleatória. Consciência e verdade são atraentes apenas à distância. As pessoas as colocariam em prática caso ambas não as arreganhassem e as tornassem criaturas tão estúpidas.

Consternado com o que acabara de ouvir, num ímpeto tipicamente masculino de auto-afirmação, pegou no saco dizendo que ela havia gostado, primeira vez que diziam que seu desempenho era lastimável. Meu filho, isso que você tá segurando não é uma barra de ouro, não vale porra nenhuma, pode soltar. Queria cobrir aquela vagabunda de porrada ali mesmo, queria quebrar seus dentes e quem sabe ela pagaria um boquete melhor do que aquele que recebera. Agrediu-a mentalmente de todas as maneiras possíveis porque não tinha culhões para botar em prática, especialmente com dois seguranças trogloditas por perto, que acabaram precipitando o encolhimento da personalidade de machão dele.

Nunca entendi a aversão das pessoas à verdade, principalmente porque com ou sem ela continuamos um bando de idiotas. A diferença é que sem a verdade se é um idiota pretensioso e arrogante. Está bem ser um idiota à sua maneira, nisto não há problema algum - eu mesma o sou - contanto que se assuma idiota ao invés de esconder atrás de frases retardadas e motivacionais para aparentar ser algo maior do que é. Ame o próximo, seja pacífico, faça o bem, eles ladram por aí à medida que excluem, fingem, fofocam, enganam e dissimulam. E este é um recurso à altura de quem o pratica, coisa de gente pequena e pobre de espírito.
Por isto, passei a admirar os idiotas convictos porque, apesar de tudo, eles têm algo próximo à coragem neles. E eu gosto de coragem. Ao passo em que a mentira sempre andou de mãos dadas com a covardia. É o medo desta qualquer coisa, que apenas quem mente sabe o que é, que motiva a farsa e, normalmente, se revela algo débil no final das contas. Afligir-se pela reação alheia é meio ridículo. Obviamente, se você disser que acha tal troço uma bosta, ninguém irá enfiar um pedaço de madeira no seu cu. Portanto, não há o que temer.


Ela deu de ombros e nunca mais tocou no assunto. Ele remoeu por meses. E toda vez em que ia comer alguém, aquele pensamento aterrador de que, talvez, a mulher fosse pensar a mesma coisa estava o consumindo. Passou a dormir mal porque um sonho se repetia durante várias noites da semana: no seu abatedouro, ele arrancava as roupas da mulher, acariciava os peitos e a bunda dela mas seu pau não queria subir de modo algum. Ele acordava transpirando e todo mijado. Levantava da cama e, na ponta dos pés, buscava uma roupa de cama limpa para trocar. Ninguém jamais poderia cogitar que um homem de vinte e cinco anos andava urinando no colchão como se fosse criança.

Somos quem fazemos ser. Contudo, há quem opte pelo caminho mais fácil, que é sempre o que requer pouco esforço mental e implica seguir as regras seculares, ocupando o tempo de forma maníaca para não perceber a inutilidade das ações diárias e olha, esta realidade quando revelada pode levar à loucura. A fórmula é velha e simples: idiotização no lugar da histeria, logo, querendo ou não, torna todo mundo ainda pior. Zumbis conformados, dizendo amém e seguindo o fluxo pois falaram que era assim que tinha que ser. Não foi dada nenhuma justificativa plausível mas não se questiona absolutamente nada. E lá vem de novo aquele silêncio conivente e tão desagradável como a merda grudada na sola do sapato, seguido de sorrisos e gestos subservientes que inoculam o veneno contido neles.
E então eles vêm com aquele papo de "você deve ser agradável sempre", sem apresentar nenhuma razão ou qualquer motivo lógico. Querem que você seja agradável sobre todas as coisas, amável até com uma pedra. Pois eu digo que esta gentileza despropositada é apenas outra mesquinhez social que alimenta comportamentos perversos entre cada um de nós. Incrível como conseguem passar o tempo todo sorrindo como debilóides, acenando mecanicamente, abraçando uns aos outros, de bem com a vida e, mesmo que estejam levando no rabo, continuam a sorrir, a acenar e se abraçar tão forçosamente que já não sei se isto é sadismo ou ambição extrema.
O primordial é manter sempre seus narizes empinados e seus orgulhos intactos. Mesmo que raspem o cu com a unha para economizar papel higiênico, mesmo que sejam motivos de chacota, mesmo que sejam tapados e sem imaginação, nunca o reconhecerão, nunca dirão que é verdade, ao contrário, dirão que quem os questiona, mente. Dirão que quem está a expô-los não passa de um frustrado e amargurado. Esta é a gênese da escravidão mental. E como são medíocres. E pior do que medíocres, são fracos. Fracos de vontade, fracos de princípios, fracos de personalidade, fracos de caráter. Confesso que eu seria capaz de sentir pena se estas pessoas não me irritassem tanto.


A situação virou uma bola de neve e ele foi ficando cada vez mais nervoso, inseguro e ansioso. Já não queria encarar noitadas, evitava beber porque achava que ia brochar, começou a prestar atenção em anúncios na internet sobre como aumentar o pênis. Tomava banho e lavava seu instrumento meticulosamente enquanto murmurava "meu precioso". Cara, você tá ficando paranóico, seu amigo lhe disse certa vez. Virou uma obsessão. Sua vida passou a girar em torno do próprio pinto. O caso era preocupante.
Até que em um dia, o que ele mais receava acabou acontecendo. Uma pobre qualquer, sentindo-se incapaz de excitá-lo, tentou de tudo. Ao cabo de meia hora, ambos desistiram e se sentaram meio distantes. Isso nunca me aconteceu antes, ele disse humilhado. Ela respondeu que aham, tudo bem, sexo não é assim tão importante. Mentira, lógico. Acendeu um cigarro e ficou ali enquanto assumia a função de psicóloga do rapaz. Seus problemas de ereção o levaram a procurar um proctologista que o encaminhou a um terapeuta.

terça-feira, 26 de junho de 2012

o momento que antecede a pancada

(Ilustração: Claudim Melo)


Não tinha certeza se havia sido o tédio ou o desencanto que a conduzira naquela empreitada, mas lembrou que se sentiu repentinamente disposta a chutar o pau da barraca no conforto do lar. Teve um lampejo perigoso e recorrente que sempre antecede estes momentos: uma lembrança vertiginosa e tão boa quanto uma trepada. Deu uma golada generosa na cerveja e se virou para alcançar a bolsa, remexeu seu conteúdo à baixa luz até que encontrou um pequeno recipiente cilíndrico, admirando-o e o segurando firmemente contra a iluminação fornecida pelo monitor. Tomou outro gole, acendeu um cigarro e continuou a flertar com o potinho, cheia da convicção que nunca tivera sobre nada na vida, aquela era sua única certeza pois era tangível. Soprou a fumaça e, como de costume, regurgitou um pouco de ar que emendou em um arroto quente. Abriu uma de suas gavetas bagunçadas e começou a vasculhá-la com certa apreensão enquanto bebericava e tragava nervosamente.
Seria apenas por diversão, afinal quem quer a porra de um vício? Deste pensamento aparentemente encorajador, acresceu-lhe uma sensação de desconforto que percorreu toda a extensão da espinha, seguida de uma idéia crescente e devastadora, porém hesitante, de foda-se o mundo que abarcou sobre seus ombros curvados. Da gaveta finalmente conseguiu extrair um cartão, então se levantou e esticou os braços para aliviar aquela pequena tensão que se acumulara nos seus membros.
Enquanto andava de lá pra cá em busca de uma superfície apropriada, lembrou-se de verificar as persianas e até mudou a música, porque a viagem seria catastrófica caso Radiohead continuasse ecoando pelo cômodo acizentado em nicotina. Pensou que queria mesmo era conviver com depravados convictos e com desgenerados. Queria conviver com aquelas vadias sujas e vulgares, com viciados que venderiam até mãe, com idiotas superficiais e suas conversas rasas, com pessoas inseguras, com mulheres rancorosas e oportunistas e com homens impotentes. Queria lidar com tudo aquilo que é vil e que é assim sem remorso. Mas espere, ela já convivia com todo o lixo da humanidade que se refugiava covardemente em carcaças de santos profetas e cordeiros. Sentiu-se como a idiota que dorme com o inimigo.
Encostou a cabeça na porta para se certificar de que todos dormiam. Não podia ser pega com o nariz na botija de modo algum. Pensando bem, era a adrenalina do segredo que a guiara por anos a fio na prática do tiro esportivo e, talvez, fosse a única coisa que a mantivera na linha e longe de problemas maiores com as drogas. Gostava de usar quase tudo e quase tudo misturado, principalmente maconha, cocaína e LSD, sempre acompanhadas de qualquer bebida alcoólica. A birita é o que ela chamava de cereja do bolo. Funcionava como o agente catalisador da explosão quando combinado com tudo que ela costumava meter para dentro do corpo sem perícia. Naquela noite, a cerveja seria a sua nitroglicerina.
Era uma mulher incapaz de suprir as expectativas alheias e sabia disso. Sabia também que era franca o suficiente para admiti-lo e dizê-lo a quem quisesse ouvir. Eu não valho nada assim como todas as outras pessoas, disse baixinho para si. Sentiu, depois desta pobre reflexão, todo o peso da injustiça do mundo nas suas costas pois as cobranças que sofria eram desproporcionais ao que lhe era oferecido. Por quê caralhos diziam-lhe sempre sobre a diligência de se abaixar as expectativas quando o que exigiam dela era altíssimo? Particularmente, criá-las nunca constituiu o problema principal, mas sim o momento em que pediram que eu depositasse as minhas fichas, prosseguiu seu monólogo como quem tivera sua força exaurida e estivesse esgotada demais até para falar. Isto não passa de uma visão simplista das circunstâncias e só favorece quem é sempre alguém pela metade. É a cultura cômoda de nego mais ou menos. Mais ou menos honesto, mais ou menos sincero, mais ou menos fiel, mais ou menos escrupuloso, mais ou menos verdadeiro e, se houvesse meios, seriam mais ou menos gays e mais ou menos grávidas. Arre, estou-me nas tintas com estas metades!, resmungou.
Nunca tivera muita paciência para qualquer coisa e aquela espera pela oportunidade ideal já estava lhe dando no saco. Mas ao perceber que o som que advinha do cômodo ao lado era apenas um ronco cansado e abafado pelo ruído massificante da televisão, sentiu-se segura o suficiente para reduzir ainda mais a sua expectativa de vida naquela madrugada fria e enfastiante. Da carteira retirou uma nota velha de cinco reais e que, aliás, parecia já ter sido usada para a mesma finalidade por outras pessoas que nunca conheceria. Pegou uma capa de CD e preparou duas carreiras paralelas com aquele pó amarelo. Encaixou o canudo no nariz e inspirou. Ahhh, emitiu com prazer, fungou diversas vezes e repetiu o gesto com a narina oposta.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

aquela sujeita devia ter algum problema mental

E devia mesmo. Até o ponto em que se auto-promovia com seus modos púdicos e castos, com a sua ingenuidade forçada, estava tudo bem. A coisa se complicou mesmo quando ela resolveu que tinha que excursionar nas minúcias das questões sociais, argumentando que violência não é a resposta logo após ter afirmado ser admiradora do Che Guevara desde quando assistiu "Diários de motocicleta", o cubano mais famoso do mundo, ela disse. Ele era argentino, tá? Mostrou-se contra o aborto e a favor da pena de morte, inclusive. Entendi, conte-me mais sobre seu lado humanista, estimulei. Idéia pela qual vim a me arrepender só mais tarde.
É que a vida é tudo para mim, ela proferiu. Sério? Não me diga, respondi em um tom reticente, e como você valoriza a vida em geral? Ah, eu faço sempre o bem sem olhar a quem... fez uma pausa para o suspense, terminando com um "mas quando posso né?", e sorriu como se tivesse tido a sacada mais genial do planeta. Pode crer, para fazer o bem tem que haver disponibilidade na agenda, certo? Ela franziu as sobrancelhas com um ar confuso e falou que claro, tem dias que tô muito apressada, fazendo as minhas coisas e nem presto muita atenção. Então não é sempre que você faz o bem, garota. Ela gargalhou feito uma retardada como se eu tivesse tido a sacada mais genial do planeta.
Simplesmente me é inconcebível esta necessidade atual de ter que ser sempre bom, não no sentido de ser altruísta e solícito gratuitamente sem esperar gratidão ou retorno, mas no sentido de querer ser bom somente para se tornar melhor do que o outro aos olhos de terceiros. Há duas possibilidades, uma assume a forma de encarceramento, tal qual uma algema que se mostra travestida de virtude e que, no entanto, não tem outra função senão a de nos abreviar individualmente a cada dia. A segunda se enquadra em uma espécie de ritual do acasalamento moderninho, porque hoje em dia esta hipocrisia se tornou o novo feromônio para a cópula. Ostentações sociais contemporâneas para quem busca parceiros sexuais.
Olhando-a daquele jeito, me senti péssima pelos deboches porque ela parecia se esforçar para mostrar que realmente estava no caminho, que queria se importar com alguma coisa e, quiçá, estivesse apenas perdida em meio às doutrinas sociais impostas, vindas de todas as vertentes, como flechas de merda atravessando a sua frágil cabecinha.
Entendo que as pessoas estão cada vez mais confusas com a multiplicidade de papéis que nos é exigida, com a velocidade com que tudo nos atinge sem que saibamos de onde vêm os ponta-pés. Entendo também que muitas delas já não conseguem escolher o seu caminho, se correm para o misticismo ou ateísmo, partidarismo ou apartidarismo, pró-ambientalismo ou progressismo, indiferença ou revolução e que as informações são propagadas sem que tenham tempo para filtrá-las e digeri-las. Divagando tudo isto em segundos, eu quis acreditar que este era o caso pois agora eu a compreendia e era complacente.
No momento em que estava perto de me transfigurar no melhor de mim, a doida maluca tem um repente e solta que a cada seis meses doava o próprio sangue, aumentando o tom de voz a fim de que todos no entorno pudessem ouvi-la. Espero que ela não tente doar o sangue de mais ninguém, pensei. A desgraçada não parava mais! Dizia amar e ter fé em Jesus Cristo e que estava interessadíssima na Kabbalah porque era muito revelador. Quem estava ali dirá ter ouvido a Madre Teresa de Calcutá com mal de Alzheimer.
Não tinha jeito, a bendita era mesmo uma dessas bem comuns que costumam falar qualquer bosta mística que lêem na internet como se tivessem achado o cálice sagrado, a filosofia suprema de vida, a verdade absoluta e o segredo da existência. Não entendia a porra toda e mesclava toda a porra, numa mistura de arrepiar. À medida que a pobre ia se endireitando na cadeira, exaltando-se e discursando cada vez mais alto, eu ia me afundando até quase ir para debaixo da mesa.
Se ela não era a favor de aborto e curtia pena de morte, se amava Jesus e Kabbalah ao mesmo tempo, se não sabia discernir nada de merda nenhuma, que pelo menos fosse tomar no cu pra lá com dignidade, tendo em mente que talvez seja melhor mesmo se limitar a maquiagem, bolsa, cabelo, sapato e noitadas ao invés de bancar a santa às vésperas da canonização. Não tenho a menor paciência para nego que, vez ou outra, empolga e sai para fazer passeios fora do eterno comercial de margarina em que está aprisionado, apenas para experimentar aventuras da pesada no mundo real.
Senti vontade de morrer. Senti vontade de enfiar meu copo na goela dela antes que eu morresse. Sempre acabo decepcionada pela minha fraqueza que culmina em lapsos de empatia e esperança, servindo tão somente para me desencantar com a humanidade cada vez mais.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

blues, chuva e uma estátua grega impertinente

Eu estava espirituosa naquele dia. Talvez fosse a cerveja. Talvez fosse a maconha. Talvez fosse a atmosfera diferente. Não importa porque qualquer coisa era melhor do que Juiz de Fora, um lugarzinho débil e candidato à metrópole em que o cheiro de merda de cavalo paira no ar. É sempre esse odor que me faz recordar da Princesinha de Minas, seguido da imagem de bosta fresca esparramada no asfalto pelos veículos. Engraçado como a Manchester Mineira insiste em manter seus hábitos rurais, enquanto tenta dissimulá-los porcamente na tentativa de proporcionar um aspecto de cidade grande. Logo rejeitei estas memórias desgostosas da minha terra, pois realmente estava bastante espirituosa naquele dia e, pensando bem, talvez fosse mesmo culpa da maconha.
Lá pelas tantas decidimos cair no mundo. Circulamos por toda a cidade em um tour lisérgico, porém agradável, olhando através das janelas do carro e observando todo mundo se amontoar nos bares para fugir da chuva fina e chata. Eu só queria tomar cerveja tranquilamente e bater papo enquanto curtia um som de qualidade. Então resolvemos parar em um lugar que nos pareceu bacana à distância. Ao chegar no estabelecimento mal pude acreditar no que vi, a creche estava à solta e houve um choque entre gerações, senti-me com cem anos de idade ou mais.
Naquele momento a chuva já caía torrencialmente e não havia meios para que saíssemos dali. Resignei-me e comecei a me divertir, primeiro com as vozes irregulares dos moleques e depois com histeria hormonal das putinhas adolescentes loucas para dar. Pareciam aves amontoadas em um galinheiro minúsculo, aonde todos se esbarravam involuntariamente, o que contribuía para o tesão desmedido acumulado dentro dos seus corpos ainda em formação. Era hilário e eu não conseguia tirar meu sorriso cretino da cara.
Como sempre ocorre quando gente nova está envolvida, é tudo um enjoamento sem fim, porque simplesmente nego não sabe sentar numa mesa de bar sem fazer cagada. Para controlar a criançada e não ter prejuízo, era necessário que adquiríssemos as fichas antes. Ao chegarmos no caixa, senti uma leve espetadinha no ombro e me virei, dando de cara com um bombadinho. Era aquele típico retardado que acredita piamente que roupas são capazes de anular uma cara de pobre aspirante à burguês ou de elevar um feio ao posto de galã. Mas tudo bem, sou compreensiva com este ranço de Power Ranger que alguns imbecis ostentam até certa idade.
No entanto, quando me dei conta, a situação havia tomado uma proporção que diligenciava um problema sério e eu não fazia a menor idéia do que estava ocorrendo. Ao despejar meu olhar inquisitivo sobre ele, como quem diz mas que merda você está fazendo, seu idiota?, reparei que ele estava bêbado igual a um porco, dando um passo para frente e dois para trás. A surpresa veio quando voltei a encará-lo e vi que a fuça dele estava retorcida e parecia estar tudo meio fora do lugar, boca no queixo, nariz na bochecha, olhos afastados. Quase um quadro cubista. Tenho certeza de que ele precisou tomar apenas cinco cervejas para ficar naquele estado.
O problema é que o moleque também havia espetado com um palito de dente uma amiga e encoxado a outra. Claro que ele estava sorrindo na cara do perigo, eu pelo menos não encararia uma briga física com nenhuma das duas em hipótese alguma. De qualquer forma, eu estava bem humorada demais para me importar com adolescentes punheteiros brincando de gente grande, então pus-me a gargalhar da situação.
Será que ele tem o pinto pequeno ou só está a fim de dar o cu?, pensei e ri, o negócio é o seguinte, continuei, acredito que em ambos os casos, estando a procura de uma vagina ou de um pênis no meio da bunda, as pessoas têm que se comportar de outro modo ou não conseguirão ter fodas que valham a pena, escangalhei-me de rir mais uma vez, agora elevando a irritação do pobre a um grau espetacularmente divertido. Eu não conseguia mais parar.
Para ser sincera, eu fiquei no aguardo de uma potencial voadora de dois pés que nunca me atingiu, porque ele se mantinha à uma distância segura pois já havia sido ameaçado - e não foi por mim. Na real, o moleque fazia o tipo corajoso que vocifera atrás dos outros e se borra todo quando a situação aperta. Não chegava a ser digno de pena porque era um débil mental, mas recebeu toda a minha compaixão. Afinal, é este o sentimento que aflora quando um homem não sabe lidar com a sua síndrome de estátua grega, vendo-se obrigado a utilizar este recurso de palhacinho para chamar a atenção de mulheres mais tapadas. Poderia dizer algo do tipo olha meu filho, ser grande e ter o pau pequeno não precisa lhe causar tanta aspereza, é só saber utilizá-lo corretamente e outros conselhos que fazem a linha tia velha solteirona, mas isto seria inútil.
Nos restavam duas fichas que, felizmente e antes que as coisas saíssem do controle, conseguimos trocar, reavendo o dinheiro para podermos ir embora. Provavelmente, o protótipo de babaca continuou ali enchendo o saco até da própria sombra com a desgraça do palitinho de dente. Coitado, além de mongolóide, era também um leitão.
Fomos do bar juvenil para um show incrível de blues, aonde a chuva adquiriu um caráter redentor, lavando minha alma e curando parcialmente o meu porre. Ao chegar em casa, enquanto as pessoas não paravam de aparecer por lá, eu fumava e continuava bebendo como se não houvesse amanhã - e ninguém poderia assegurar o contrário -, trocando palavras amenas e fugazes. Estávamos em paz uns com os outros de uma forma cândida e evidente, estávamos em paz com o mundo, em paz com o que era próprio do mundo. Gostava daquilo. Gostava, sobretudo, daquela condição despreocupada e displicente, aliás, poderia viver até o final dos meus dias daquela maneira para ter a possibilidade de ser razoavelmente feliz.
Acordei satisfeita, apesar da ressaca monstruosa que me deixou sob os escombros da minha existência.

terça-feira, 22 de maio de 2012

sou muito escrota mas vocês são vergonhosamente covardes

(Ilustração: Claudim Melo)


Sobre a minha evidente deficiência emocional já procurei explicações até na astrologia, capricorniana, você sabe como é... o fato é que eu tenho um problema sério para exprimir sentimentos. Perdi a conta de quantas vezes quis dizer um mísero te adoro mas não passei de um olhar indulgente e ninguém que o tenha recebido entendeu o que eu pretendia com ele. Devolveram-me um olhar frustrado seguido de uma cara de cu e quem ficou frustrada e com cara de cu, no final das contas, fui eu.
Minhas demonstrações de afeto sempre acabam atravessadas na goela, como um nó ou um vômito ou um espinho de peixe, não necessariamente nessa ordem. Sou uma escrota. E não há nada que eu não tenha tentado que fosse capaz de reverter meu temperamento retraído e que muitas vezes soa como frieza, mesmo tendo um turbilhão de emoções pulsando por dentro, elas simplesmente ficam entaladas. Sou uma escrota emocionalmente constipada. É como se eu tivesse comido demais e não conseguisse cagar, por isto vou inflando como um balão até que estouro e os dejetos respingam em quem estiver por perto.
Acabei me tornando um ser humano preenchido pela sensação de impotência, porque as pessoas necessitam de provas concretas e eu só consigo fornecer evidências, tão subjetivas quanto a própria vida. Não sei o que os outros querem de mim, se é que querem alguma coisa, e se querem, deve ser algo que não tenho competência para prover ou até hoje não compreendi o que é.
E entenda, meu estoque de amaciantes de ego é restrito, aliás, sou a favor de ações ao invés de palavras sublimes que vão se esvair com o vento e perder o valor na primeira malícia de oportunidade que acarrete algum deslize meu. Porque vou cometer erros e magoar os outros, porque vou ser sincera demais e as pessoas nunca estão preparadas para isto, porque vou ser perfeccionista demais. Porque esta é a minha natureza: ser rígida comigo e com as pessoas. Então vou ser crítica demais, vou ser melancólica demais, vou reclamar demais, vou encher a cara demais, principalmente quando estiver de mal com o mundo e quando estiver de bem com o mundo também.
Enfim, este comportamento une tudo aquilo que a sociedade reprova. Porque os vínculos emocionais, em sua maioria, precisam de coesão e esta coesão só é possível através de meias-verdades, algo com função similar à da argamassa entre azulejos mas que se deteriora com o tempo e você tem que estar sempre ali reforçando o rejunte. No entanto, somente elas permitem que os laços interpessoais se estreitem, ao contrário das verdades desnudas, que expõem aquele pedacinho particular de cada um que ninguém quer que saibam, que todos odeiam secretamente e, por esta razão, cismam que têm que escondê-lo do mundo no desespero da necessidade psicótica de aceitação.
Afinal, todos querem pertencer a alguma coisa e esta é a base da alegria falseada da humanidade: ignorar verdades para conseguir simular felicidade. Todavia, pertencer seria impossível caso as relações não fossem construídas sobre dissimulações, do contrário, os outros te conheceriam a fundo nos seus piores aspectos - aqueles que nos deixam mais próximos dos animais que somos - e isto implicaria rejeição.
Não diga que seu amigo é feio, diga que ele tem uma beleza diferente que apenas pessoas sensíveis conseguem enxergar. Não diga que seu amigo está gordo, convide-o com sutileza para ir à academia com você. Não diga que seu amigo é burro, diga que ele é dotado de um tipo peculiar da inteligência prática, de modo que a recíproca ocorra em um silêncio cúmplice e conveniente.
Perceba que estas meias-verdades não passam de eufemismos hipócritas disfarçados de complacência, não tendo outra função senão jogar para debaixo do tapete o pavor da solidão. Este hábito medonho, que insistem em não chamar de falsidade, nos é empurrado como um dever cívico. Renegá-lo ou não, portanto, é uma tarefa individual, já que em algum momento você ou seu amigo feio, burro e gordo começará a parecer tapado. Está nas suas mãos.

terça-feira, 8 de maio de 2012

era uma vez um homem que agia como um homenzinho

Tomei um gole generoso da minha cerveja e o observei enquanto ele tentava me diminuir com algumas palavras rudes e pobres. Meu bem, eu não faço a menor questão de que os outros gostem de mim porque ninguém tem essa obrigação, disse-lhe, assim como eu também não tenho a menor obrigação de gostar de todo mundo, aliás, eu não suporto a maioria das pessoas que conheço, concluí em voz alta. Será que é complicado entender que não me insulto com a falta de estima dos outros?, eu pensei enquanto olhava fixamente no meio da sua cara estúpida. Ele esbugalhou aqueles olhos marrons ficando com um aspecto retardado, então me vi obrigada a rir.
Não me senti babaca por dizer aquilo porque não há babaquice alguma no fato de eu não ter uma ínfima disposição para lamber o saco alheio. Todos são assim e poucos confessam. Besta é quem pratica uma devoção exagerada às pessoas, muitas vezes até as odeia e, ainda assim, insiste em querer agradá-las mesmo que isto lhe custe a melhor parte da sua existência.
Eu continuava ali encarando o infeliz com uma curiosidade inocente, à espera da próxima ação e ele não conseguia resolver se enfiaria a mão na minha cara, ou se iria embora, ou se me xingaria de qualquer outra coisa vulgar. Eu não me importaria mesmo e no fundo ele sabia disto, portanto, não havia nada que ele fizesse capaz me retirar daquele estado de profunda indiferença com o que achava ou deixava de achar. Eu simplesmente cagava para as opiniões dele.
Senti dó do sujeito ao ouvi-lo se atropelar para cuspir um papo de "você é um lixo", no qual nem ele acreditava porque não me conhecia, mas que evidentemente havia elaborado na noite anterior e tivera sido muito mal planejado ou, talvez, a pressa para sair por cima da situação tivesse ocasionado aquela má execução.
Era um camarada engraçado nos seus modos. Fazia o tipo que ensaiava tiradas épicas em casa durante seus monólogos solitários, depois de se admirar em frente ao espelho, fingindo ser o macho alfa do pedaço. O típico sonhador sempre dentro do seu quarto abafado, com cheiro de sêmem seco nas páginas de revistas e decorado pela mãe com aviõezinhos. Debochei interiormente.
Nunca enxerguei virtudes nos submissos por escolha pessoal - e acredite que não é um pensamento exclusivo meu. Não há méritos em abdicar da própria consciência por outra apenas para ser o que os outros querem que você seja, isto te torna apenas covarde, especialmente se estes outros forem um bando de idiotas. Mas "idiotas" se tornou uma palavra vaga aqui, enfim, permita-me ser concisa: idiotas são aqueles que se sentem ameaçados por idéias distintas das que eles têm.
A humanidade cansou de nos conceder provas de que as idéias são perigosas, sobretudo porque reduz idiotas ao tamanho real que eles têm e estilhaça toda a ilusão que precisam manter para que tenham algum valor dentro das relações sociais. Quer seja para treparem, quer seja para serem bajulados nas noitadas, quer seja para curarem traumas de infância ou, quiçá, tão somente para esconderem aquele pedacinho obscuro da personalidade que detestam. Em suma, idiotas são inseguros e precisam menosprezar alguém para que se sintam melhores.
Afinal, sexo sozinho é monótono, não ser importante causa inveja, ter sofrido perseguição provoca rancor e não se aceitar corrói a cachola. A única coisa que querem é que você os enxergue como algo maior do que são, como se os vislumbrasse através de uma lente de aumento. São estas mesmas idéias que jogam por terra a visão hiperbólica de que necessitam, caso contrário, não foderão ninguém, não terão seus egos masturbados nas noitadas e se sentirão tão pequenos a ponto de esta insignificância doer, mesmo que não o admitam. E não o farão.
Mas aquele cara era um homem tão comum, tão como a maioria: com o cu no lugar da boca, uma azeitona no lugar do cérebro e, apesar de gostoso, não passava de um ser humano ordinário pela presunção. Eu sentia uma tremenda preguiça dele. Bocejei. Percebe o que você está fazendo?, perguntei, o quê?!, ele resmungou como um cachorro surpreso, você está me dando sono, respondi. Riram dele e, naquele momento, recebi um olhar furioso de orgulho ferido.
Sei que não são todos assim e que existem exceções às regras: as amebas, por exemplo. Estas realmente não têm a menor idéia do que se trata ou do que acontece no mundo. Todavia, estou a falar de gente. E tem gente que acha isto bonito. E tem gente que se sente superior. E tem gente que pensa ser importante. E tem gente que não raciocina e fala demais. Gente comum continuará se sentir superior. Gente comum continuará a pensar ser importante. Gente comum continuará achando isto bonito. O problema é que essa gente comum não entende que "quem fala muito, dá bom dia a cavalo" e neste caso, é melhor torcer para que o cavalo não seja eu.
Continuava olhando aquele rosto retorcido pelo ódio enquanto bebia minha cerveja, agora razoavelmente gelada, o que era a única coisa que realmente me incomodava. Além de ser um babaca, havia estragado a birita, ato indesculpável que o tornava merecedor de um espancamento por aquele delito. Ele esboçou qualquer pensamento que, num lapso de prudência suprema, preferiu não dizer e rachou fora do alcance da minha visão. Terminei com o resto da long neck e fui mijar.