sábado, 4 de abril de 2009

flertando com o fiasco


Hoje é sábado, o que, evidentemente, não faz muita diferença, hoje é um sábado como todos os outros, pelo menos ao longo desses últimos meses, através do quais tenho me arrastado mediocremente pelos cantos da casa, com um pavor inexprimível de gente e com uma lata de cerveja fodida na mão. Não há motivos, não há sequer inspiração, quiçá tenha perdido o talento, juntamente com outras coisas e pessoas que se desvaneceram nas curvas do trajeto sinuoso da minha vida como uma neblina matinal.
Não, seus dramáticos, isto definitivamente não é depressão. Não é nada que se possa dizer sintomático, como uma doença que se manifesta em perturbações no organismo, é apenas um "estar de saco cheio", absoluto e inexpugnável, de mim e dos outros, e também dos estorvamentos provenientes destas malditas obrigações sociais que não fazem sentido nenhum pra mim. É um "estar de saco cheio" do ter que ser psicoticamente feliz, psicoticamente simpático, psicoticamente disposto, psicoticamente onipresente. E no entanto, a única coisa que me deixaria verdadeiramente saciada, seria estar psicoticamente entorpecida.
É mais fácil e é mais cômodo, principalmente para quem passou vinte e dois anos vivendo uma fraude, uma mentira deslavada em que me era agradável viver. Eu disse viver? Eu não vivi. Aliás, eu não vivo. Estou aqui, com uma certidão de nascimento simplesmente para constar que eu existo. Sou mais um número, um dado de alguma estatística, uma brasileira que não desiste nunca de tudo sempre desistir, e quando eu tento de verdade, me apego à idéia de que chegarei a algum lugar, alguém nota aquela cordinha agarrada à minha bunda e me puxa para baixo.
Haha. São vinte e dois anos de uma vida mal vivida. De amizades não cultivadas. De fodas mal tiradas. Tudo isso comigo na garupa de uma roda gigante que gira enlouquecida num universo lisérgico visto através de um prisma, e do qual eu recordo vagamente, porque eu também brinquei de fingir que não me importava, estive ocupada demais, entretida demais, empolagadinha demais com meu parque de diversões distorcido para perceber qualquer indício de qualquer besteira. Pelo menos, àquela época eu costumava julgar ser tudo uma tremenda besteira, família, estudo, amigos caretas, filantropia, era tudo uma chatice.
Hodiernamente, essas coisas continuam enchendo a minha paciência, família, estudos, amigos caretas, filantropia, mas todas essas bobagens agora me são necessárias, talvez pelo simples fato de não as ter e então as desejar e precisar delas como preciso do ar - habitualmente, eu sou assim mesmo -, ou então porque um belo dia acordei do meu coma induzido e reconheci nestas idiotices o caminho para fora deste poço em direção à luz, ou qualquer coisa assim. Não sei, só sei que não as tenho mais, pelo menos por inteiro, são uns pedacinhos aqui e outros ali mas que já não são compatíveis, são como cargas de sinais iguais que se repelem.
Desta cagada, a que fiz questão de resumir minha frágil existência, restaram-me somente as cervejas, as quais tomo por só tomar como nunca outrora, vendo-as como minhas companheiras insubstituíveis, fiéis e sinceras, que disfarçam a insalubridade de dias decorridos no marasmo. Não tenho amigos verdadeiros porque eles não existem mais. Não tenho distrações porque as putas das distrações já não me distraem mais. Não tenho romances porque meus breves relacionamentos não fecundam a paixão. Mas ao menos tenho estas cervejas geladas, as rainhas da minha vida miserável.

2 comentários:

vitorjf disse...

conclusao: vao bebe!

Wury disse...

Acho que eu já "ouvi" isso, mas nunca tão forte e bem escrito...