domingo, 15 de agosto de 2010

sobre a morte repentina no sentido figurado

Acordei morta. Não decifrei as razões e não entendi os porquês, muito embora não haja porquês e razões para a morte, mas o fundamental é que estava morta. Olhei-me no espelho e até achei que estava com um bom aspecto (se é que alguma vez tinha tido bom aspecto), mas não parecia nada com estar morta. Sempre fui um pouco feiosa, então ocorreu-me que talvez fosse apenas a sensação de estar um bocadinho mais fria por dentro traduzida como coisa morta por fora.
À segunda vista, tudo parecia escuro de sentimento. E aquela beleza que não existia revestia o entorno e separava as metades perfeitas da vida, tal qual uma borracha articulando vãos em diálogos. Lembranças transformadas em fundações para os muros serem edificados na memória. É triste como quando as coisas desfeitas são sentidas de fato, elas passam a ter a palidez de um sol à noite ou o respirar profundo do sono pesado.
Não sei se por ingenuidade ou por burrice, percebi tardiamente que palavras são apenas o veículo da ilusão, criadas pelas forças das circunstâncias. Uma ligeira inspeção na consciência foi o suficiente para virar o aparente ao contrário e verticalizar a linha do horizonte no sentido inverso .
Na diligência do penhasco, senti à volta o vôo circular da rotina que impregnou o ar do que sempre foi. E, de forma bastante aborrecida, observei a consternação que rodeava cada acontecimento e lamentava a apatia da vida cíclica, que pode não passar da eterna e vergonhosa insatisfação.
Hoje, as emoções ficam do lado de lá. Sei que qualquer sopro cretino é capaz de apagar as velas desse bolo estragado de tanto esperar. É só soprar.

Um comentário:

Felipe disse...

acho que sim ou nao. LEidegaga diz: domingo vou pro maraca ver o meu vascao!