sexta-feira, 24 de setembro de 2010

recomeço ou algum otimismo que espreita por detrás de qualquer tragédia

A vida em primeiro lugar é estúpida e depois incompreensível. Dotada de um absurdo ou beleza que não posso suportar. Se é mistério subtamente revelado, apavora-me. Se é nada, repugna-me. A vida é essa alguma-coisa que a minha imaginação não consegue alcançar. Para mim, um segundo ou um século têm valido a mesma coisa, talvez por ter feito apenas esperar, e "esperar" é aquele típico verbo que já abre prerrogativa ao aborrecimento.
Vive-se para a absorção da morte. Durante todos os dias esperamos num desespero sem gritos pelo fim, inflados de terror, como uma advertência instintiva. A morte é a dor extrema e emudecida. A vida é quase nada. Tudo que se conquistou à custa de desespero, lágrima e esforço converge para a cova e para sempre. PARA SEMPRE, OUVIRAM? Então por que nascer? Para ver isto e depois não ver mais isto? Para sonhar alto e depois não sonhar? Adeus sol, adeus amigos, adeus fodas, adeus álcool, adeus possibilidades.
Perco dias e noites na tentativa de me habituar à essa ideia e simplesmente não consigo. Tenho horror a ela, odeio-a. Joga por terra todos os meus cálculos. É o maior dos absurdos: ver para não ver, ouvir para não ouvir, viver para morrer... e tal como a cobra se apega à pele, o que mais me custa a largar é a vida, ainda que seja patética e ordinária. Não há quem possa com semelhante peso.
Na realidade, morrer é contrário à razão. Nunca acreditei que tivesse que morrer. Morrer é idiota. A realidade da morte é caricata e pega-me desprevenida. O sonho de não morrer... o pior é que esse sonho é o meu sonho e o sonho dos outros, ninguém o confessa senão a si. Nosso sonho é não morrer! Quando a gente se esquece, a vida já tem um passado e quando a vida já tem passado é que nos apegamos com mais saudades à ela.
Eu não vivi e ainda estou aqui, mas vou, só não sei pra onde. Vou porque quero ser mais do que sou, sem deixar de ser o que sou. Vou porque o fim lógico da vida não é morrer, é viver sempre, ascender sempre. Dando cabo à concepção de morte é que se abrange a vida, dá-se um novo impulso. Verá que colorido o mundo escorre e que frutos as árvores dão... e anseio por outros sabores e cores, outras vozes que não são as de sempre, outros ares, outros odores.
Quero a vida por inteiro. Quero a vida e a sua pobreza, e o seu sofrimento, e a sua mesquinhez, e a sua sujeira, e os seus canalhas, e as suas putas. Tudo, mas inerte não, inconsciente não. Quero recomeçar a viver a mesma vida inútil. Quero é recomeçar a viver a vida gota a gota.
Vou recomeçar a desgraça.

Um comentário:

Priscila disse...

*.* adoro teu blog.