quarta-feira, 20 de outubro de 2010

este absurdo que impele e esmaga

Eu sou uma desconhecida para mim mesma. Ia morrer sem ter tido um momento a sós comigo. E é com dor, com espanto e dor, que me reconheço. É com os olhos pasmos de dor que me vejo. Tudo mudou. A sofreguidão que todos os dias da vida nos empurra e leva, o sentimento de efemeridade e o horror da morte, essa coisa imponderável que inutilmente tento deter - sem nome e a que se chama tempo - que nos usa, a que não ouço os passos e que caminha inalterável. Tudo desapareceu de vez. Restou-me a lógica e a consciência. Mas a consciência aceito-a, admito-a, contanto que não me confunda. A consciência que todo mundo quiser, contanto que não me torne mesquinha e medíocre, ou não me iluda. Sou a única juiza da minha vida. O fim consiste não em dominar-me, mas em dominá-la.
Suprimida a consciência, suprimido também o tempo e o espaço, a sinceridade inexiste: o que está latejante é a paciência maliciosa, a mentira e a ferocidade. As coisas todas esperam a ocasião. Esperam e desesperam. A parte de dentro é que está viva e reclama de pé a sua vez. Mas notem: ninguém arrisca um gesto mais brusco. Por mais vinagre que lhes venha à boca estão habituados a engoli-lo. Nem se estivessem encapuzados se atreveriam a olhar a verdade. Pra dentro. Sempre pra dentro! E é assim de tal forma que nunca se construiu uma catedral com alicerces mais profundos.
A alguns só a paciência e o cálculo lhes permite viver. Às vezes têm fome - nunca dizem que sentem fome. Sabem logo quando entram numa casa as palavras que agradam a mãe rancorosa e a filha cheia de pretensões. Sabem sobre quem se há de falar bem durante aquela semana e mal na seguinte. Esperam como uma aranha de estômago vazio. Nunca pediram esmola. Melhor: conseguiram se dar ao respeito. E calculam, calculam, calculam, de barriga vazia, o tempo e as ações.
A inveja sustenta, mas o fel sustenta ainda mais. Com fel constrói-se uma vida porque ele proporciona uma certa solidez. Sem o fel seria impossível meter pra dentro todo o vinagre que vem à goela. De quando em quando até percebem o vasto campo de destroços de que deviam o olhar. Foi-lhes então inútil o fel? Sem ele já teriam morrido. Quando sentiram fome, quando deram dinheiro para o marido beber, quando disseram amenidades para o amigo sorrir, o que os sustentou foi o fel.
A mentira tem razão de ser, sem abjeção a sociedade os repele. Admite-se alguma abjeção, não completa e total, que repugna, apenas a necessária para servir de realce e moldura para os seus quadros. Acrescentem a isso o fato de se ter que viver com despreocupação, de sorrir com despreocupação, de mentir com despreocupação. A obrigação de se ter que viver com toda a despretensão do mundo mesmo com a miséria atrás de si.
O maior drama é o das consciências. O maior drama é arredar os trapos da vida para poder enxergá-la cara a cara. O maior drama é ficar só com o vácuo e de frente ao espanto. O maior drama é não encontrar razões para isto que vive de gritos e se sustenta de gritos - e ter que arcar com isto. Perceber a nulidade de todos os esforços e fazer todos os dias o mesmo esforço. Então todo o meu desespero, a minha dor, a minha renúncia, o meu calvário, se tornam inúteis diante do vinagre, da inveja e do fel.
Vidinha ignóbil...

2 comentários:

Rafael disse...

GENIAL!

Dias ocorridos disse...

Nossa linda d+ curto Dostoiévski
me add no orkut ckydskt@hotmail.com