quinta-feira, 11 de novembro de 2010

não pertencer a nada é a síntese da independência

Apenas uma vez fui verdadeiramente amada. Simpatias, tive-as outras várias vezes. Algumas dessas simpatias poderiam, com auxílio meu, pelo menos talvez, ter se convertido em amor ou afeto. No entanto, nunca tive uma ínfima paciência ou atenção espiritual para sequer desejar empregar esse esforço.
A princípio de observar isso em mim, julguei que havia nesse caso qualquer coisa próxima de timidez na minha alma. Depois eu descobri que não era nada disso. Não passava de um tédio de emoções, diferente do tédio da vida, uma impaciência de me ligar a qualquer sentimento contínuo, sobretudo porque eu haveria de aplicar um esforço prosseguido. A minha fraqueza de vontade começou sempre por ser uma fraqueza da vontade de ter vontade. Assim me sucedeu nos sentimentos como sucedeu em todo o resto da vida.
Mas daquela vez em que uma malícia da oportunidade me fez julgar que sentia uma pontinha a mais do que mera simpatia, fiquei, primeiramente, confusa. Fiquei, depois, com um sentimento difícil de definir, mas que se salientavam incomodamente as sensações de tédio, de humilhação e de fadiga.
De tédio, como se o destino me tivesse imposto uma tarefa com objetivos desconhecidos, como se um novo dever - o de uma horrorosa necessidade de reciprocidade - me tivesse sido imposto. De humilhação, por ter em mim um sentimento aparentemente tão pouco justificado pela sua causa. E fadiga, sobretudo fadiga, pelo esforço sobre-humano que eu teria que fazer para me matar pela reciprocidade me dada com a ironia de um privilégio e depois agradecer ao filho da puta do destino pelo sucesso da investida.
Até agora a mentira me fez suportar a vida, a insignificância e as palavras tornaram-me a vida possível, a vida onde à custa de palavras cheguei a ser Sarah Barquete, Esteves dos Reis, Sarah Reis, Baguete e Babete ou Boquete e Basquete. Só à custa disso pude aturar a vida e o horror da vida. Só por não a ver, pude encará-la. Só enquanto fui feita de pequenas misérias e palavras inúteis a pude suportar.
Custa muito construir uma vida fictícia, a ser Barquete e Esteves dos Reis, a criar um Deus ou uma mania. Custa a melhor parte do nosso ser. É certo que metade disso - pelo menos metade - é representado. Se me confessasse, eu diria: - Sou uma atriz, eu sou uma atriz de mim mesma: represento até quando sou sincera, até quando digo o que sinto é o outro eu, noutro tom de voz, que diz o que sinto.
Mais da metade, muito mais da metade dos meus sentimentos, são postiços. Todos estamos ligados por compromissos, aceitamos certas leis e vivemos de aparências. Existe entre nós e dentro de nós um acordo tácito. No fundo, sempre soube que o que me diziam era mentira, mas me sentia na obrigação de ajudar a mantê-la, respeitando esse compromisso vital.
Para podermos viver, lidamos apenas com uma parte convencional da vida, a outra não existe, se existisse, seríamos bichos. Essa vida é uma mentira e a outra é monstruosa e bestificada. Desabada a arquitetura aparente, ficamos simplesmente estúpidos. Isso que está aí por terra custou muito desespero, primeiro na inconsciência e obscuridade, através da inconsciência e obscuridade, e depois através de terrores e indescritíveis esforços. Custou a dor das dores, poder discernir dois ou três fatos essenciais na treva condensada.
Não se subordinar a nada - muito menos a um afeto - parece-me ser o decorrer natural da vida íntima dos que não param de pensar. Ter aquela independência longínqua que consiste na ausência de sentimentos, porque tudo isso é a cela e é também as algemas. Pertencer, eis a banalidade. Ser é estar livre.

5 comentários:

fernanda disse...

Poo Sarão, tinha tempo q vc n redigia um acoisa tão honesta!Tão Sarah!Tão vc!Vc ta + serena, + certa do q vc quer, d quem vc é..sei la, ta maduro o texto!
to mtu orgulhosa1 e como o outro amigo falou.."casa comigo again mulher!" hehehehe te amo!

Banda Proclame disse...

Segue o conselho da sua amiga, e casa logo comigo!

Para_Colorir disse...

"OFF HE GOES"

É da banda Pearl Jam. Album No Code.

Ouça.

Danilo Vilela disse...

As coisas legais que você escreve são seu tal mundinho insosso? Porra, insosso sou eu. Falou.

Necta disse...

levemente cruel.. mas tao maneiro, autentico e engraçado!!
muito clara e coesa.. faz minhas ideias parecerem... ideias! ;)
gratidao ter lido bons textos essa hora da madrugada