segunda-feira, 17 de outubro de 2011

um conto que conto para ganhar nenhum conto

Na época do colégio eu tinha uma amiga e nós éramos grudadas como amigas devem ser. Era dessas que são dotadas de um prazer de viver inabalável e tudo é uma perfeita sucessão de fatos e o mais estúpido dos acontecimentos lhes figura esplêndido assim como o surgimento de uma supernova figura para um astrônomo, logicamente que não pensavam nunca em astronomia, limitavam-se apenas à astrologia. Como estava dizendo, esta minha amiga tinha um brilho próprio que irradiava e que acabara por blindá-la das desgraças da escola, então tudo lhe tivera sido bastante simples nestas questões. Sempre achei que fosse uma boa pessoa, dotada de princípios católicos, engajada, avessa às desigualdades sociais, ao álcool, ao cigarro, à maconha, à cocaína, se acabava no axé, funk e pagode, mas, no final das contas e no pesar da balança, era uma boa pessoa e vivia uma boa vida em sua bolha.
Nunca a invejei pelo fato de a sua vida ser formidável. Quero dizer, nunca a invejei pela sua vida ser formidável 24 horas por dia, formidável no sentido de que ao dormir todos os seus sonhos eram magníficos, a bosta que cagava saía em forma de corações fofíssimos, com flechas atravessando coisa e tal, até seu mijo era esguichado junto com estrelinhas douradas. Óbvio que não a invejava, perfeição demais me é uma tremenda chatice que transforma as ações em gestos de ventríloquo. Aliás, naquele tempo já havia me resignado à condição de ser uma coadjuvante. No entanto, me ocorria uma idéia furtiva de que, talvez, houvesse algum detalhe que me escapava e que tornava aquele universo dela uma coisa inacessível lá no infinito. Eu queria sentir o deleite de estar viva, afinal, eu também tinha esse direito. Certo? 
Acontece é que estar viva sempre me custara um esforço sobre humano, principalmente porque o singelo fato de respirar em comunidade implica, inevitavelmente, ter de suprimir tudo o que eu sou, tudo que eu acredito e subjugar-me a doutrinas sociais psicóticas que nunca fizeram o menor sentido para mim. Na época, disseram-me que apenas semeando o terreno com as sementes de bons costumes a minha ascensão seria possível e que o resto, espontaneamente, se realizaria. Mas eu nunca consegui enxergar espontaneidade nesta história de você tem que agir assim, falar assado, olhar desta maneira, segurar a periquita desta outra aqui. Como nunca me sujeitava, nem antes nem agora, o resumo é que, aos olhos da sociedade, eu sempre fora um animal repulsivo.
O que eu quero dizer é que existem pessoas, como esta amiga, que já nascem com o rabo virado para a lua, que são lindas, simpáticas, falam com maciez e, por isso, têm suas vidas traçadas numa trajetória definida com destino à plenitude. O trabalho lucrativo de uma vida toda, (escravidão). Um marido delicioso de uma vida toda, (tédio). Um breve intervalo para crise de meia idade, micose, menopausa, casos extra conjugais, chulé, discussões, refeições solitárias em silêncio, ofensas brutais, falta de sexo, essas coisas todas, (finalmente a realidade). Um outro breve momento para colocar a família em ordem, estabilizar a água do lago, deixando a superfície estável mas escondendo o fundo cheio de dejetos, (manter as aparências). Ver seus filhos favorecidos pela genética formados, casados, grávidos, (contar vantagem em reuniões de amigos). E passar de geração a geração todo este patrimônio abençoado por Jesus de Nazaré, que será contado como um Cântico dos Anjos do Senhor aos seus netos, bisnetos, trinetos e sei lá mais quem até o final dos tempos.
E, bem meus queridos, este não é o meu caso. Aos 24 anos ainda não me formei, não tenho renda fixa e comecei a me tornar um grande estorvo para os meus pais. É aborrecedor, principalmente por ouvir todos os santos dias sobre meus inúmeros talentos que ainda não me deram retorno porque sou tímida demais, às vezes trocam timidez por preguiça, da minha fabulosa inteligência, para eu não desistir, que é mesmo uma idiotice o que eu faço da minha vida, de como destruo com aditivos químicos os meus neurônios de gênio incompreendido e para parar de trocar de curso na faculdade, escolher algo e focar-me naquilo, embora eu só tenha trocado uma única vez.
A questão é que, em vida, sou o sinônimo de tudo aquilo que não deve ser feito, fizeram de mim um bom exemplo de um mau exemplo e espero que depois de passar desta para melhor eu, finalmente, seja reconhecida, tenha meus dons valorizados, blábláblá, porque vocês sabem: um fracassado na vida, vira santo na morte. A glória conferida a um defunto prematuro é incrível, "que pena, tão nova", "escrevia como ninguém, deviam ter publicado seus textos", "tão talentosa", "tinha um coração enorme, poderia ter acrescentado mais ao mundo", esta aura de respeitabilidade que um presunto adquire é um fenômeno fabuloso! A morte encerra tudo e o que resta são apenas as infinitas possibilidades, nossos mortos seriam qualquer imagem conforme desejássemos, não pela certeza mas pela incerteza do que poderiam ter sido e que dormiu na vaga idéia de um talvez. É cômodo. É confortável. Alivia a consciência de quem sempre nos fodeu, nos denegriu, nos excluiu, nos espezinhou, nos humilhou e dificultou a nossa vida.
Calma, amiguinhos, controlem estes estômagos fracos! Ainda há muita cerveja neste mundo para eu tomar, muita maconha para eu fumar, trepadas para praticar, histórias sacanas e tristes para dissertar e, portanto, não pretendo abrir mão de tanta diversão tão cedo. Porquanto, continuarei asquerosa e provocarei náusea, aversão e horror ao rebanho durante muito, mas muito tempo.

2 comentários:

ARIANA disse...

seu penúltimo parágrafo quase me matou. Num fode, né mém?!

Renan Moreira disse...

Acho eminente sua forma de pensar...e de certa forma acho legal ter poucas pessoas que pensam assim,pois, não abordaríamos temas tão peculiares